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    postado em 17/02/2026 18:49

    Um calango gigante saiu em cortejo, no fim da manhã desta terça-feira (17), ocupando a Asa Norte, bairro do centro de Brasília. A alegoria do animal típico do Cerrado - em verde, amarelo e vermelho - é a autêntica marca do bloco de Carnaval Calango Careta, desde 2015.

    Diferentemente dos grandes blocos do Distrito Federal, que ficam em áreas isoladas como o Eixo Monumental e o Museu da República, o calango erguido e articulado por bambus, nos moldes do dragão do bloco de Olinda (PE) Eu Acho é Pouco, serpenteia para fazer um “carnaval de vizinhança”, ao lado de prédios residenciais. A regra é a coletividade.

    A analista de sistemas Ana Bastos há 19 anos reside em Brasília e trouxe a filha Helena Louzada, de 16 anos, para aproveitar a festa.

    A recifense confirma que a capital federal não deixa a desejar na hora da folia, mesmo que em uma escala menor, se comparada à de sua terra natal. “Os bloquinhos são uma delícia, há animação e tranquilidade.” 

    Brasília (DF), 17/02/2026 -Carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Carnaval de rua do Bloco Calango Careta. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    Mensagens

    Para comunicar a preservação do Cerrado, o bicho é acompanhado por um enorme boneco de saruê, que muitas vezes é hostilizado por se parecer com um roedor.

    Abaixo da estrutura, o bonequeiro voluntário, o educador social Gabriel Ballarini diz que adora dar vida à alegoria.

    Brasília (DF), 17/02/2026 - Gabriel Balarine com sua fantasia de saruê participa do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Gabriel Ballarini veste fantasia de saruê. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    “Basicamente, tenho que acenar para a galera e pular. Pesa um pouco, tem uns quatro quilos. Mas, estou me sentindo muito orgulhoso hoje.”

    O bonecão desta espécie de gambá fez sucesso com o pequeno Rui, de 1 ano e quatro meses. Os pais dele escolheram fantasiá-lo de outro animal bastante recorrente no bioma, a capivara.

    Pedro Tarcísio, que trabalha com design de produtos, conta que o filho ama a percussão e é influenciado pela mãe, uma musicista.

    Brasília (DF), 17/02/2026 - Pedro Tarcísio com seu filho Bruno participam do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Pedro Tarcísio e o filho curtem o Calango Careta. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    “Este é o nosso bloco favorito. Mostrar os instrumentos, os animais o deixam muito apaixonado por tudo isso.”

    Estética

    A estética do bloco é marcada por uma mescla de cultura popular e psicodelia das roupas de artistas com grandes asas, apeados em pernas de pau, acompanhados de palhaços, acrobatas mascarados e outros circenses que mostram a direção do cortejo ao público.

    Apoiadora do grupo há um ano, Vanessa Cândida Rezende veio para o gramado munida de girassóis e um regador que despeja glitter em outros foliões.

    “Tenho glitter no corpo, em casa, em todos os cantos. Essa é a alegria do carnaval que levaremos para o resto do ano e, por isso, estou aqui regando um jardim de glitter.”

    Brasília (DF), 17/02/2026 - Vanessa Cândido participa do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Vanessa Cândido levou um regador de glitter. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    Se em 2025, as homenagens à atriz Fernanda Torres, pelo filme Ainda Estou Aqui, se multiplicaram Brasil afora, em 2026, a esperança de uma nova estatueta do Oscar está registrada nas fantasias que remetem à outra produção brasileira: O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho.

    Inspiração que pautou um casal presente ao Calango: a jornalista Ana Chalub e o músico Luiz Bragança.

    A jornalista estava fantasiada de Dona Sebastiana, interpretada pela atriz potiguar Tânia Maria, de 79 anos, com o plus de ter um cigarrinho fake sempre à mão. Ana Chalub explica que mirou nas cenas de carnaval do filme.

    “O início já ocorre em um dia de carnaval e a gente achou que tinha tudo a ver com o momento político e por ser super favorável ao filme. Para a preparação da personagem, tive até que aprender a colocar bobs no cabelo curtinho.”

    Brasília (DF), 17/02/2026 - Ana Chalub e seu compaheiro Luiz Brangaça participam do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Casal se inspirou no filme O Agente Secreto. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    Já Luiz Bragança apostou na fantasia de orelhão, retratado tantas vezes nas ruas do Recife e de Brasília da década de 1970. A irreverência ganhou corpo com pedaços de boia do tipo espaguete e fita crepe. 

    “O carnaval é o espaço de tempo para a gente tentar outras possiblidades e fazer algo que não está no nosso dia a dia. É o momento de celebrar a nossa cultura, nossa música”, festejou.

    Sonoridade pede passagem

    Sob as copas das árvores, o Calango tem fanfarra própria. Ali, é a Orquestra Camaleônica quem ditou o ritmo bem marcado pelo sopro dos trompetes, trombones, saxofones e potente percussão.

    No repertório, muito ciranda, frevo, maracatu e hits da música popular brasileira (MPB). A canção Lucro, do grupo BaianaSystem, e Frevo Mulher, de Zé Ramalho, já viraram clássicos ecoados pelos foliões aos pulos.

    Não há cordas ou abadás. A interação é bem próxima entre músicos e público, como a da estudante Mariana Junqueira Marini, de 15 anos, fantasiada de uma personagem do desenho Backyardigans.

    Brasília (DF), 17/02/2026 - As amigas Mariana Junqueira (e), Isis Rocha (c) e Helena de Aragão (e), participam do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - As amigas Mariana Junqueira (e), Isis Rocha (c) e Helena de Aragão (e) participam do carnaval de rua. Foto:  Joédson Alves/Agência Brasil

    “Minha mãe sempre me levou para o carnaval, mas eu não curtia muito. Agora, gosto mais porque venho com minhas amigas.”

    Amiga que não economizou na tinta azul para ficar parecida com o personagem de infância, como conta Isis Frank Rocha, de 16 anos.

    “Minha mãe ajudou a me pintar. Eu gosto de brincar no carnaval, de ser engraçada. Não é só para ficar bonita.”

    Vibração sem idade

    O Calango Careta mistura no mesmo espaço crianças pequenas, jovens e idosos.

    Pela primeira vez, a performance do grupo fisgou a fisioterapeuta Gabriela Barcellos, grávida de 8 meses de Henrique. Os planos dela são de criar o filho curtindo o carnaval, ao lado da enteada de 6 anos, que vai ao bloco interessada em jogar espuma e confetes para cima.

    Brasília (DF), 17/02/2026 - Gabriela Barcellos participa do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Gabriela Barcellos participa do Bloco Calango Careta. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    “Aqui em Brasília, a cultura do carnaval tem aumentado bastante.”

    Há anos, quem vem guiada pelo estandarte colorido do Calango é a aposentada Mara Carvalho. Aos 75 anos, ela trouxe para mais um carnaval a filha, o genro e o neto. A missão é perpetuar a tradição.

    “Desde pequenininha, eu gosto muito de carnaval. Minha mãe, minha irmã, meu irmão, todo mundo brincava.”

    Brasília (DF), 17/02/2026 - Mara Carvalho 75 anos participa do carnaval de rua no Bloco Calango Careta.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF), 17/02/2026 - Mara Carvalho levou a família para manter a tradição de carnaval. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    A folia da dona Mara não terminou no Calango Careta. Nesta terça-feira, ela promete emendar pelas ruas de Brasília outro bloco, o Pacotão, famoso pela sátira política.

    Calango Careta

    Desde 2015, é tradição que o local de saída do Calango Careta às ruas seja divulgado horas antes do cortejo, para criar expectativa.

    O Calango Careta também inspirou até fábulas escolares locais, como A Fábula do Calango Careta ou a Folia de Mil Dias, usada em escolas da Asa Norte para ensinar sobre cultura popular, pertencimento e ocupação pública.

    Na sexta-feira (20), será exibido em sessão única no Cine Brasília o documentário Calango Careta: 10 Anos de Eterno Carnaval, que conta a história de um grupo de amigos que construiu um calango gigante para brincar o carnaval nas ruas de Brasília e se tornou um dos ícones da cidade. O bloco que virou movimento, a brincadeira que virou tradição.

    >> Veja as imagens do Calango Careta


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