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    postado em 09/03/2026 16:49

    A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, será o primeiro quilombo tombado do país.

    O reconhecimento marcará a estreia do Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

    A declaração oficial acontecerá nesta terça-feira (10), durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo do órgão. O presidente do Iphan, Leandro Grass, adiantou que "muitos outros territórios quilombolas receberão, com justiça, esse mesmo reconhecimento".

    A declaração de tombamento representa um importante gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas. O trabalho conduzido pelo Iphan para o tombamento constitucional dos quilombos é construído com a participação direta das comunidades, que são as verdadeiras protagonistas, disse.

    A arquiteta Rayssa Almeida Silva mora na comunidade Tia Eva, como o quilombo é popularmente conhecido. Ela participou do processo de tombamento com os técnicos do Iphan e entende a medida como legado para o futuro e homenagem aos ancestrais.

    Primeiro, buscamos realizar o sonho dos mais velhos. A outra luta é para despertar o interesse dos mais jovens. Muitas pessoas moram aqui em Campo Grande e não sabem da história. Esse reconhecimento ajuda a mostrar o exemplo que Tia Eva foi de não desistir das batalhas da vida, disse Rayssa.

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    Histórico

    O quilombo foi criado pela benzedeira e alforriada Eva Maria de Jesus, a Tia Eva (18481929). A comunidade se consolidou como um marco importante da resistência negra no Mato Grosso do Sul.

    Para o superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, a declaração de tombamento valoriza a trajetória da líder comunitária e religiosa que dá nome ao território.

    Há um protagonismo de uma mulher negra, recém alforriada, que chega no sertão brasileiro, como era conhecida a região sul do então Mato Grosso e, nesse território, ela constitui uma comunidade fantástica. Era uma comunidade rural, que agora se insere no contexto urbano, diz o superintendente.

    Nilton dos Santos Silva, tataraneto de Tia Eva, espera que outras pessoas possam se interessar pela história da comunidade.

    Tudo que eu aprendi e o que sou vem de gerações passadas. Espero agora, com o tombamento, o reconhecimento da história, onde tudo começou, e também que venham mais coisas para a comunidade, como reformas e visitantes, diz Nilton.

    Declaração de tombamento

    O processo de tombamento começou nos primeiros meses de 2024, a partir do diálogo dos técnicos do Iphan com moradores do quilombo. O trabalho foi orientado pela Portaria Iphan nº 135, de 20 de novembro de 2023, que regulamentou esse procedimento para documentos e sítios que contenham memórias históricas dos antigos quilombos.

    Por meio da portaria, foi criado um Livro do Tombo específico para os quilombos e uma série de princípios, como a autodeterminação e a consulta prévia, livre e informada das comunidades quilombolas.

    A norma destaca o protagonismo da população afro-brasileira na luta pela liberdade (por meio dos fenômenos do quilombismo e aquilombamento), valoriza princípios antirracistas nas ações patrimoniais e reconhece a resistência quilombola contra a escravização e a discriminação histórica.

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