
Com capacidade de gerar uma tonelada de gelo ao dia e de armazenar até 20 toneladas, o complexo, chamado Gelo Caboclo, inclui poço artesiano para abastecimento exclusivo de água de boa qualidade, sem interferir no consumo da comunidade, e uma pequena usina de placas fotovoltaicas e baterias de litio capazes de manter a produção de forma ininterrupta.
Pescador da terceira geração de uma família que tem a profissão como uma das principais fontes de subsistência, Nelson Brito, aos 49 anos, comemora a autonomia que a fábrica de gelo trouxe para mais de 30 famílias da região.
Aqui, a principal forma de subsistência hoje é a pesca e o turismo. Antes, tinha o corte de madeira, que o turismo substituiu, mas a pesca continua, com apetrechos mais modernos, como rede que não prende o peixe pequeno e, agora, o Gelo Caboclo, diz.
Segundo Nelson, até a fábrica ficar pronta, o gelo era comprado em Manaus, a uma distância de cinco horas na velocidade da embarcação pesqueira, o que fazia do investimento uma aposta que já começava com a despesa do combustível, da mão de obra contratada e da perda pelo derretimento. Se a gente precisava de uma tonelada, comprava três, para garantir a manutenção do pescado até o fim da pesca. Se naquele mês não desse peixe, perdia tudo, conta.
Sustentabilidade social
A solução veio a partir de uma força-tarefa que reuniu organizações sociais, iniciativa privada, governos e a própria comunidade em um esforço para solucionar a demanda, existente na maioria das comunidades ribeirinhas da Amazônia que vivem da pesca: a logística para a manutenção do pescado do rio até o consumidor.
A busca pela demanda partiu da organização social Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que mobilizou o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), outra organização social responsável por gerir o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), uma política pública da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
Foi por meio do PPBio que a empresa Positivo, de hardware e componentes eletrônicos, entrou com o aporte de R$ 1,3 milhão como investimento em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), em troca de benefícios fiscais. Mais R$ 200 mil em baterias foram entregues pela UCB Power, totalizando um custo de R$ 1,5 milhão em investimentos.
Sustentabilidade econômica
Por estar localizada em uma Unidade de Desenvolvimento Sustentável, o licenciamento também foi viabilizado pela FAS. Depois de pronta, a fábrica foi entregue a um gestor.
Com assessoria e assistência técnica, a gente também traz uma preocupação de capacitar as pessoas para a gestão do empreendimento, para que ele se torne sustentável do ponto de vista econômico. Então fizemos uma seleção e a própria comunidade escolheu o gestor, que é quem assume o negócio, diz Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS.
O gestor é irmão caçula de Nelson e também pescador, Demétrio Júnior, que viu no projeto a oportunidade de melhorar a própria renda e ainda ajudar a comunidade. Com a fábrica de gelo, o pescador agora pode ir atrás do peixe primeiro e só comprar o gelo se conseguir pescar. Então, ele não corre o risco de ter uma despesa inútil, diz.
De acordo com Demétrio, na temporada de pesca será possível atender a 70% da demanda dos pescadores e os outros 30% poderão ser resolvidos com uma complementação comprada em Manaus durante a venda do pescado. Outras cadeias produtivas também vão se beneficiar fora dessa temporada, como o turismo, que utiliza esse gelo para armazenar o seu pescado antes de servir aos clientes, e a agricultura familiar, que precisa para armazenar a goma da tapioca, diz.
Com a oportunidade de gerar renda o ano inteiro, a fábrica também traz o desafio de pagar os custos da manutenção da usina, do poço artesiano e de equipamentos de fabricação do gelo. Para dar conta desses custos, Demétrio Júnior já pensa em soluções que aumentem mais ainda as facilidades de quem trabalha longe de um centro urbano.
A gente já está estudando outras fontes de receita para agregar valor ao comércio, além do gelo. Então, vamos vender também mantimentos para os pescadores, diz.
Sustentabilidade ambiental
Além de desonerar a cadeia produtiva da pesca artesanal, o Gelo Caboclo também diminui a pegada de carbono deixada pelas emissões de gases de efeito estufa durante parte do deslocamento das embarcações movidas por combustível fóssil.
Sem ter como neutralizar plenamente essas emissões, o projeto se preocupou em fazer uso de energia limpa e garantir segurança energética à atividade de geração de renda.
A energia que chega pela rede falta sempre. Com as chuvas constantes da região, é comum cair uma árvore sobre a linha e a gente passar dias até que ela seja restabelecida, diz Nelson Brito.
Segundo Valcléia Lima, o acesso à energia ainda é um desafio na Amazônia como um todo, por isso o projeto pioneiro foi desenvolvido para também servir como modelo a ser replicado em outras comunidades ribeirinhas que tenham a pesca como fonte de renda.
Historicamente, na Amazônia, a gente tem um problema sério de energia. Um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente mostra que quase 1 milhão de amazônidas não têm acesso à energia e a energia é habilitadora para a atividade de geração de renda, então, para a gente realizar isso só é possível quando temos parceiros que acreditam nesse trabalho e tornam isso realidade,conclui.
*A repórter viajou a convite da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)
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