Dengo, axé e samba: conheça palavras africanas no dia a dia do Brasil
<p><p style="text-align:center;"><a class="" href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-05/dengo-axe-samba-conheca-palavras-africanas-no-dia-a-dia-do-brasil">
<img src="https://cdn.jsdelivr.net/gh/sergiosdlima/[email protected]/abr/assets/images/logo-agenciabrasil.svg" alt="Logo Agência Brasil" style="height: 54px;">
</a></p><strong>O dia a dia dos brasileiros é repleto de palavras derivadas de línguas africanas, principalmente dos troncos linguísticos banto e iorubá. Elas nomeiam comidas, sentimentos, partes do corpo e elementos culturais.</strong><img src="https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.png?id=1690472&o=rss" style="width:1px; height:1px; display:inline;" /><img src="https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.gif?id=1690472&o=rss" style="width:1px; height:1px; display:inline;" /></p>
<p><strong>O dia 25 de maio é o <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-05/dia-da-africa-continente-aproveita-ascensao-da-china-e-mira-progresso">Dia da África</a></strong>, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA), em 1963. </p>
<p><h3>Notícias relacionadas:</h3><ul><li><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-05/festival-akwaaba-em-sao-paulo-celebra-ligacao-entre-africa-e-brasil">Festival Akwaaba, em São Paulo, celebra ligação entre África e Brasil.</a></li><li><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-04/lideres-africanos-pedem-soberania-e-integracao-para-superar-terrorismo">Líderes africanos pedem soberania e integração para superar terrorismo.</a></li></ul>O babalaô (sacerdote de candomblé) Ivanir dos Santos, pedagogo, pesquisador brasileiro, doutor em História Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca algumas dessas palavras e seus significados:</p>
<ul>
<li>Aluá: Bebida fermentada</li>
<li>Axé: Energia, força vital ou saudação</li>
<li>Bagunça: Desordem, confusão</li>
<li>Berimbau: Instrumento musical de corda</li>
<li>Bunda: Nádegas</li>
<li>Caçula: Filho mais novo</li>
<li>Cafuné: Carinho na cabeça, acariciar</li>
<li>Dengo: Manha, carência</li>
<li>Fubá: Farinha de milho</li>
<li>Moleque: Menino</li>
<li>Quitanda: Pequeno comércio de hortaliças ou mercado</li>
<li>Samba: Gênero musical e dança</li>
<li>Xodó: Pessoa muito querida, apego</li>
</ul>
<p>O trabalho de Ivanir dos Santos é reconhecido pela defesa dos direitos humanos, pelo combate ao racismo e à intolerância religiosa.</p>
<h2>Ajuste fonético</h2>
<p>O filólogo e linguista brasileiro Ricardo Stavola Cavaliere, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), disse à <strong>Agência Brasil </strong>que o português do Brasil tem um vasto vocabulário de origem africana que cobre várias áreas da atividade social. Entre elas, citou "vatapá", "dendê", "moqueca" e "farofa" na culinária; "berimbau" e "cuíca" na música; "chimpanzé" e "camundongo" na fauna. </p>
<p>Cavaliere ocupa a cadeira número 8 na ABL, para a qual foi eleito em abril de 2023.</p>
<p>Segundo ele, normalmente essas palavras mantêm no português o significado da língua de origem, mas há casos como samba, que sofreu alteração semântica em português: de um tipo de dança passou a designar um gênero musical. </p>
<blockquote>
<p>Evidentemente, as palavras de origem africana sofreram ajuste fonético ao ingressar no léxico do português, comentou.</p>
</blockquote>
<p>No trato familiar, o professor Cavaliere citou a palavra dengo para designar a noção de carinho e afeto, além de caçula, que se refere ao filho mais novo. <strong>Segundo ele, a inclusão de palavras africanas no âmbito da família decorre da intensa presença de mulheres escravizadas nas atividades domésticas a partir do Primeiro Império.</strong></p>
<blockquote>
<p>A palavra cafuné, por exemplo, vinda do quimbundo e que designa o ato de coçar ou acariciar a cabeça, é típica dessa relação íntima de mulheres africanas no ambiente das famílias brasileiras no século 19.</p>
</blockquote>
<h2>Origens</h2>
<p><strong>De acordo com o filólogo, inicialmente, as línguas que mais forneceram palavras foram o quimbundo, o umbundo e, em menor medida, o quicongo. São as línguas que chegaram com o largo fluxo do tráfico escravagista a partir da segunda metade do século 16. </strong></p>
<p>A presença do quimbundo era tão expressiva que motivou o padre jesuíta Pedro Dias a escrever uma gramática dessa língua, publicada em 1697. A finalidade era facilitar seu aprendizado pelos padres que cumpriam missão no Brasil.</p>
<p>A partir do século 18, intensificou-se o tráfico de pessoas escravizadas de etnia iorubá ou nagô, o que propiciou o aumento de palavras desse tronco linguístico, destacou Cavaliere. </p>
<p>Tais palavras são frequentes na denominada língua de santo, presente nos cultos do candomblé, tais como orixá, babalorixá, Ogum etc..</p>
<h2>Angola</h2>
<p>O pesquisador angolano Geovany Fernandes-Cattuco, ou simplesmente Gio Cattuco, como é mais conhecido nas redes sociais, é um criador de conteúdo digital que ganhou notoriedade por produzir conteúdos focados na expansão, valorização e divulgação da cultura angolana e africana.</p>
<p>Um de seus principais focos de trabalho diz respeito à origem das palavras angolanas que acabaram sendo adotadas no vocabulário brasileiro. Alguns exemplos são as palavras "dengo", que em português significa doçura, carinho, atenção, originária do termo n<em>dengu</em>, falado na língua kikongo, ou quicongo. </p>
<p>Dessa mesma língua vem a palavra "muvuca", derivada de m<em>vuca</em>, cujo significado é aglomeração.</p>
<p>Da língua kimbundu, ou quimbundu, resultaram várias palavras inseridas no vocabulário brasileiro, entre elas cambada (do termo <em>dikamba</em>), cujo significado é amigo ou companheiro; capanga (<em>kubanga</em>), que significa lutar; babá (do verbo <em>kubaba</em>), equivalente a acalentar ou embalar uma criança para adormecer; beleléu (<em>mbalale</em>), sinônimo de sepultura ou campa em que se enterram as pessoas mortas; e caçamba (<em>kisambu</em>), espécie de cesto grande.<br />
</p>
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<h2>Herança diária</h2>
<p><strong>O professor de ciências humanas e mestre em ciências da educação Augusto Ribeiro sustenta que a herança africana está não só no vocabulário, mas na cultura brasileira e no jeito de falar do povo. </strong>Ele afirma que os brasileiros falam africano todos os dias e não percebem. </p>
<p>Na avaliação de Ribeiro, cada palavra é um pedacinho da história, uma resistência que atravessou o tempo e ainda vive na nossa fala.</p>
<p>A palavra banguela, ou sem dente, da língua kimbundu, é um exemplo do legado africano na língua falada no Brasil, indicou. Outras expressões e gírias são citadas também pelo professor, como mandinga, moleza, xingar, malandra, quindim, miçanga.</p>
<p>Segundo Augusto Ribeiro, falar é também resistir. E acentua que a cultura negra está viva e valorizada no jeito e na fala do brasileiro. A fala negra é preservada, afiança. </p>
<h2>Tradição</h2>
<p>Para o professor Gilvan Muller de Oliveira, doutor em linguística pela Universidade de Campinas (Unicamp), a comemoração sobre o Dia da África não deve ressaltar o continente apenas como algo do passado do Brasil, quando havia escravizados.</p>
<p>Para ele, a data deve ser comemorada mobilizando a nossa tradição como país com mais pessoas de origem africana em todo o mundo fora da África.</p>
<blockquote>
<p>Mobilizando as nossas tradições oriundas de diversas partes da África, em diferentes momentos, para uma colaboração com o continente africano, para uma relação externa menos colonial que nós só temos com a Europa e Estados Unidos, disse. </p>
</blockquote>
<p>Segundo o professor, isso pode ser feito por meio das universidades, com o objetivo de dar à população brasileira uma visão do que é a África de hoje, do que são os países africanos de hoje, quais as oportunidades que eles nos abrem, quais benefícios essa relação bilateral pode nos trazer. A meta é tornar viva essa tradição também no aprendizado que se faz com a população brasileira.</p>
<p>O Ministério da Educação (MEC) realiza a partir desta segunda-feira (25), em Brasília, o 1º Fórum de Reitores Brasil-África. O objetivo é consolidar a educação superior como eixo central da relação bilateral entre o Brasil e os países do continente africano.</p>