
Com o curta-metragem No Fim do Déjà-Vu, sua estreia como diretor e roteirista, João Pedro venceu o prêmio de Melhor Diretor no Los Angeles Brazilian Film Festival e percorreu festivais internacionais.
Mas a trajetória começou longe dos sets de filmagem: Virei ator a partir de um momento em que eu estava desempregado. Procurei uma agência de modelos e encontrei uma coisa na contramão, que foi esse sonho e esse amor pela atuação, lembra.
Antes da televisão e do cinema, João trabalhava como jovem aprendiz em um banco. Foi essa experiência que, segundo ele, ampliou seus horizontes para além dos limites geográficos e simbólicos da favela.
Foi quando realmente tive acesso a uma outra realidade muito diferente daquela em que eu estava inserido. Eu sempre estudei perto de casa. Quando fui trabalhar no banco, precisei me deslocar e conhecer outros lugares. Comecei a ir a palestras, exposições, teatro, conta.
A mudança representou mais do que um novo emprego: Quando você acessa esses outros lugares, começa a ter também esse capital cultural. Eu passei a perceber que também podia fazer aquelas coisas. Talvez o sonho de todo mundo que cresce dentro da favela seja, de fato, ganhar o mundo.
João descreve a experiência de circular pela cidade como a descoberta de um Rio de Janeiro dividido.
Quando você está lá no alto do morro, a lógica é uma. A cultura é uma. A forma de lidar com a vida é uma. Quando desce e vai para o asfalto, percebe que alguma coisa muda.
Essa percepção atravessa a produção artística dele. Nas obras, o artista procura romper com representações limitadas que historicamente marcaram personagens negros no audiovisual brasileiro: Quando a gente olha a representação negra no audiovisual lá atrás, tinha muito esse lugar subalternizado. Era o empregado, o motorista, o traficante. Agora, quando começamos a contar as nossas próprias histórias, damos outro tom para isso.
Para ele, a mudança não está apenas na presença de atores negros nas telas, mas na possibilidade de construir novas narrativas.
Um é rapper, outro é microempreendedor, outro está transitando por diferentes espaços. Você começa a ver outras possibilidades de existência. Isso constrói uma outra imagem na cabeça das pessoas sobre quem somos.
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Cinema para transformação
João Pedro Oliveira fala sobre primeiro curta-metragem No Fim do Déjà Vu, vencedor de melhor direção no Los Angeles Brazilian Film Festival- Rovena Rosa/Agência Brasil
Sem formação acadêmica tradicional em cinema, João construiu sua trajetória por meio de cursos livres, oficinas e estudo autodidata. Atualmente, retomou a graduação em Estética e Teoria do Teatro: Precisei entender como escrever um roteiro, como trabalhar a narrativa. Fui fazendo cursos e aprendendo na prática.
Foi desse processo que nasceu No Fim do Déjà-Vu. O curta acompanha Fabrício, um artista plástico negro que decide abandonar o tráfico para sustentar o filho por meio da arte. Durante um festival de pipas, a criança desaparece misteriosamente, levando o personagem a uma jornada de busca marcada pela espiritualidade negra.
Eu queria contar uma história sobre espiritualidade e sobre a minha própria relação com isso. A ficção permite que você conte a sua história de outra forma.
A obra estreou internacionalmente em Nova York e conquistou o prêmio de Melhor Curta-Metragem antes de chegar ao Brasil. Em seguida, recebeu reconhecimento no festival de Los Angeles, consolidando a projeção internacional do diretor.
O filme foi exibido para um público que não conhecia aquela realidade. Eu me perguntava se eles entenderiam. E entenderam. Foi emocionante.
Antes de dirigir, João já havia chamado atenção como ator. Em 2024, recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília pelo curta E Seu Corpo é Belo, dirigido por Yuri Costa. Ambientado nos bailes black dos anos 1970, o filme retrata uma história de amor entre dois homens negros em um contexto raramente explorado pelo cinema brasileiro.
Foi mágico. Eu lembro de entrar na sala e ver Rui Guerra assistindo ao filme. Depois ele ficou até o final e veio conversar. Foi uma noite inesquecível.
A experiência reforçou a convicção do artista sobre o papel transformador da arte, Eu queria fazer um filme que pudesse chegar a pessoas que vivem essas mesmas realidades e mostrar que existem outros caminhos possíveis.
João reconhece a importância de iniciativas que abriram espaço para artistas oriundos das periferias, como o grupo teatral Nós do Morro e produções como Cidade de Deus.
A possibilidade de você se ver representado é o que permite sonhar. Quando alguém parecido com você faz alguma coisa, você passa a acreditar que também pode fazer.
Cinema nacional
Para o diretor, o atual momento do cinema nacional representa uma oportunidade histórica de apresentar ao mundo um Brasil mais complexo e diverso: Fazer com que as pessoas descubram mais sobre a nossa cultura para além dos estereótipos é maravilhoso. O audiovisual tem sido essa ponta de lança.
Na avaliação de João Pedro, o cinema brasileiro vive um período de renovação criativa capaz de despertar interesse internacional: O Brasil tem muito potencial para exportar não apenas a nossa cultura, mas também as nossas formas de realizar, nossas técnicas e nossos métodos. Existe uma sede por histórias novas, e o cinema brasileiro pode oferecer isso.
A aposta do cineasta é que essas histórias continuem surgindo dos territórios que, por muito tempo, ficaram à margem das telas: Eu acredito que a gente pode construir outras realidades através do cinema. E também ressignificar histórias que foram contadas de outra forma. Essa é a força do audiovisual.
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