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    postado em 09/07/2026 09:37

    O Museu do Ipiranga abriu ao público, nesta semana, a exposição inédita Liberdade: bairro plural, que revisita a história da região a partir das sucessivas ocupações de grupos étnicos. Frequentemente associado à imigração japonesa, o bairro tem uma trajetória muito mais ampla e complexa. Com entrada gratuita, a mostra fica em cartaz até 31 de janeiro de 2027.

    Região emblemática da cidade de São Paulo, o bairro da Liberdade teve em sua formação indígenas, portugueses, africanos e afro-brasileiros escravizados ou livres, japoneses, italianos, alemães, russos, estadunidenses, chineses, taiwaneses, libaneses, haitianos, guineenses, bolivianos e outros.

    Ao reunir objetos, fotografias, documentos, vestimentas, instrumentos musicais, mobiliário, projetos arquitetônicos e obras de arte provenientes de instituições sediadas ou historicamente ligadas ao bairro, a exposição revela como diferentes comunidades contribuíram para moldar a paisagem cultural da Liberdade, divulgou o museu. 

    Com curadoria dos historiadores Paulo Garcez Marins, Mônica Raisa Schpun, Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro, a exposição é organizada em três módulos e apresenta a Liberdade como um território em permanente transformação.

    De acordo com os curadores, por mais de dois séculos, a região foi ocupada e transformada por diferentes grupos, tornando-se um território marcado por encontros, trocas culturais, permanências, deslocamentos e disputas de memória.

    Próximo à Praça da Sé, o bairro começou a ser formado em um território que pertencia aos tupis que habitavam o planalto paulistano. A partir do século 18, as primeiras ruas surgiram em torno de antigos caminhos indígenas, como aquele em que hoje está a Avenida Liberdade.

    Brancos de origem portuguesa, africanos e afro-brasileiros escravizados ou livres começaram a se instalar no local. No século 19, os curadores apontam que a presença da forca, do pelourinho, do Hospital da Santa Casa, do Cemitério dos Aflitos e da Casa de Pólvora fez com que a região fosse associada à morte, à punição e ao medo, desvalorizando os terrenos e tornando-os mais acessíveis para populações de menor renda e para novos moradores que chegavam na cidade.

    A partir das últimas décadas do século 19, o bairro passou a atrair sucessivas ondas de imigrantes, como italianos, portugueses, alemães, japoneses, chineses, taiwaneses, russos, libaneses e norte-americanos. No local, eles estabeleceram residências, templos religiosos, associações culturais, escolas, jornais e espaços de sociabilidade.

    A curadoria ressalta que, mais recentemente, a região passou a acolher também imigrantes e refugiados vindos da África, da América Latina e do Caribe, o que promove continuamente a diversidade no bairro. 

    Apagamentos 

    A curadoria evidencia que a pluralidade da Liberdade não resulta apenas da coexistência de diferentes grupos, mas das relações construídas entre eles. Ao longo do tempo, o bairro se consolidou como um espaço de convivência, negociação e intercâmbio cultural, onde distintas tradições religiosas, linguísticas e associativas passaram a compartilhar o mesmo território. 

    Além de destacar as presenças de grupos diversos, a exposição aborda processos de apagamento e disputa de memória. O percurso apresenta episódios como a atuação e extinção compulsória da Frente Negra Brasileira na década de 1930, a destruição do Cemitério dos Aflitos e a importância de sua Capela para as memórias negras, a demolição da Igreja dos Remédios ligada ao abolicionismo.

    Além disso, houve perseguição e expulsão de famílias japonesas durante a Segunda Guerra Mundial e o confisco da sede da Sociedade Filarmônica Lyra em 1945, ligada à comunidade alemã.

    Outro tema central é a construção da imagem atual da Liberdade como bairro associado especificamente aos japoneses.

    A partir da década de 1970, por iniciativa da prefeitura, foram feitas intervenções urbanas inspiradas nas tradições japonesas, que transformaram a paisagem local e consolidaram uma identidade visual que se tornou símbolo turístico da cidade, menciona a curadoria.

    Uma das propostas da mostra é justamente promover a reflexão sobre esse processo e como ele contribuiu para ampliar a visibilidade da presença nipo-brasileira, ao mesmo tempo em que favoreceu o apagamento das demais presenças étnicas.

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