MAIS LIDAS

    postado em 08/11/2026 11:11

    Com a Copa sediada no Brasil, 2027 será o ano da celebração do futebol feminino. É em sintonia com esse momento que se dá o lançamento da história em quadrinhos Time dos Sonhos, da jornalista e pesquisadora Angélica Kalil e da ilustradora PriWi. A obra acompanha sete meninas que tentam montar um time de bairro enquanto investigam a trajetória das pioneiras do esporte.

    O livro, publicado pela editora Bebel Books e contemplada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) do Estado de São Paulo, é destinado ao público infantojuvenil, mas não se limita aos mais jovens. 

    A partir de uma linguagem acessível e divertida, com direito a menções a memes e um projeto gráfico que remete a um caderno de colagens, Time dos Sonhos recupera a história do futebol feminino do mundo e no Brasil, explicando, por exemplo, que o esporte foi proibido de ser praticado por aqui durante quase quarenta anos.

    De acordo com Bebel Abreu, fundadora da Bebel Books, o pontapé inicial do projeto foi das próprias autoras. Priscila de Paula, conhecida como PriWi, foi goleira quando mais nova e voltou ao futebol amador depois de adulta. Angélica nutria um desejo de falar sobre a história das mulheres no futebol no Brasil. Desse interesse, nasceu um livro em que um grupo de meninas, no intuito de formar o próprio time, resolve pesquisar sobre as pioneiras.

    Resgate

    Além de divertir os fãs de histórias em quadrinhos, Time dos Sonhos tem como mote o preenchimento de uma lacuna: a falta de informações acessíveis sobre a trajetória do futebol feminino no país. Uma das razões que explica essa escassez é a própria proibição por aqui do acesso das mulheres ao esporte.

    O veto começou em 1941, quando o então presidente da República Getúlio Vargas assinou um decreto-lei que tirava das mulheres o direito de praticar esportes incompatíveis com as condições de sua natureza. Entre os argumentos, estava o de que jogar futebol poderia prejudicar a gestação de um bebê. 

    O decreto foi revogado em 1979, mas a regulamentação oficial da modalidade só aconteceu em 1983.

    Em sua pesquisa, Angélica Kalil levantou documentos que mostram que a imprensa foi uma das principais articuladoras da proibição. Nas capas dos jornais da década de 1930, estampavam-se manchetes como Pé de mulher não foi feito para se meter em chuteiras e  O futebol mata a graça da mulher. 

    É importante lembrar que não foi apenas no Brasil que esse esporte foi proibido. Mas me parece que aqui, mesmo décadas depois de cair a proibição, ainda existe uma recusa ao futebol jogado por mulheres, que não é tão forte em outros países. Eu entendo isso como um reflexo da nossa sociedade tão fortemente estruturada no racismo, na misoginia e na LGBTQIA+fobia", explica Kalil.

    Livro contando a história do futebol feminino no Brasil. Foto: Bebel Books/Divulgação
    Ilustradora PriWi (e) e a jornalista e pesquisadora Angélica Kalil contam a história do futebol feminino no Brasil em HQ - Foto: Bebel Books/Divulgação

    Lançamento

    É neste espaço que a HQ se insere, resgatando o pioneirismo de jogadoras como Fanta, Cebola, Soro, Sissi, Tafa, Katia Cilene, Grazi, Lorena, Formiga, Cris e Marta. 

    Por isso, a distribuição de Time dos Sonhos foca também na ampla circulação dessa história. Além de estar disponível no site da editora Bebel Books, em 150 livrarias físicas do país e em livrarias virtuais como a Amazon, o livro tem sido apresentado em eventos como feiras literárias.

    Em São Paulo, o lançamento oficial da obra ocorreu no Centro Olímpico, com a presença de mais de 100 meninas boleiras. As autoras também têm participado de ações em escolas e em projetos sociais focados no fomento do futebol feminino. Nesses momentos, elas também promovem oficinas, como a de confecção de um brasão (na obra, as meninas precisam definir o nome e criar uma marca para o próprio time).

    As sete meninas que compõem Time dos Sonhos carregam nomes que homenageiam personalidades importantes na defesa dos direitos das mulheres. 

    PriWi criou as personagens entre 2013 e 2018. Elas foram convivendo comigo. Me inspirei em amigas da escola, meninas brasileiras, sonhadoras. Quero que as meninas consigam se enxergar nas personagens. A Angélica trabalhou a jornada de cada personagem e isso potencializou o gestual de cada uma, o que tornou meu trabalho bastante complexo, mas muito gratificante, explica.

    Bebel Abreu ressalta que, embora seja projetado para um público infantojuvenil, Time dos Sonhos tem conquistado fãs de várias idades. 

    A recepção do livro não poderia estar sendo mais bonita. A obra tem como protagonistas meninas boleiras de 12 a 15 anos, mas é importante dizer que ela é uma HQ multigeracional. É lindo ver como as adolescentes se reconhecem no livro, mas muita gente adora e se encanta. Inclusive os meninos, já que a HQ é sobre futebol e amizade", conta.

    Por fim, Angélica Kalil destaca a importância de que cada vez mais mulheres encontrem seu espaço no futebol - seja jogando, seja falando sobre ele. 

    Como disse Simone de Beauvoir em sua obra O Segundo Sexo: Toda a história das mulheres foi escrita pelos homens. Mas isso está mudando e chegou a hora de contarmos a história do futebol feminino", conclui.

    Gostou da matéria? Escolha como acompanhar as principais notícias do Correio:

    Dê a sua opinião! O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores. Clique aqui e saiba mais.