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    postado em 09/06/2026 13:50

    A Netflix tem investido pesadamente em produções baseadas em crimes reais, muitas delas centradas na investigação policial ou na figura do criminoso. Com A Testemunha (The Witness), no entanto, a plataforma segue um caminho diferente. A minissérie britânica de três episódios, dirigida por Alex Winckler e escrita por Rob Williams, parte do brutal assassinato de Rachel Nickell, ocorrido em Londres em 1992, mas escolhe contar a história pelo olhar daqueles que sobreviveram à tragédia: André Hanscombe e seu filho Alex, a única testemunha ocular do crime.  

    O resultado é uma das produções mais maduras e emocionalmente devastadoras da Netflix em 2026.

    Um true crime que prefere falar sobre as vítimas

    A principal virtude de A Testemunha é sua recusa em transformar o assassinato em espetáculo. Enquanto séries como Dahmer Monster: The Jeffrey Dahmer Story, The Serpent ou até The Ripper dedicam boa parte do tempo à investigação ou à figura do criminoso, aqui o foco está no impacto do trauma ao longo dos anos.

    A narrativa acompanha André tentando reconstruir a vida enquanto cria sozinho o filho, que cresceu carregando o peso de ter presenciado a morte da mãe ainda aos dois anos de idade. A série mostra como o luto, a exposição da mídia e os erros da polícia moldaram a trajetória dos dois durante mais de uma década.  

    Essa escolha narrativa torna a obra mais próxima de dramas familiares do que de thrillers policiais tradicionais. Para alguns espectadores, isso pode soar menos empolgante. Para outros, é justamente o que diferencia a produção da maioria dos true crimes lançados atualmente.

    Jordan Bolger entrega a melhor atuação da carreira

    Grande parte da força emocional da série está nas mãos de Jordan Bolger, conhecido por trabalhos em Peaky Blinders e The 100.

    Sua interpretação de André Hanscombe é intensa sem cair no melodrama. Bolger transmite exaustão, culpa, revolta e amor paterno de forma extremamente natural. Diversos críticos destacaram sua performance como o grande destaque da minissérie.  

    Também merece elogios o trabalho de Max Fincham e Jahsiah Williams, que interpretam Alex em diferentes fases da vida. Ambos ajudam a construir a sensação de um trauma que nunca desaparece completamente.

    Quando a investigação policial vira o ponto fraco

    Apesar das qualidades, A Testemunha não é perfeita.

    Ao optar por dividir o tempo entre o drama familiar e os desdobramentos da investigação, a série ocasionalmente perde ritmo. Os trechos dedicados aos erros da polícia britânica, à perseguição equivocada de Colin Stagg e aos avanços posteriores do DNA são importantes para contextualizar o caso, mas nem sempre possuem a mesma carga emocional das cenas centradas na família Hanscombe.  

    Alguns críticos também apontaram que a produção poderia aprofundar ainda mais as consequências psicológicas da tragédia, preferindo em determinados momentos recontar fatos históricos em vez de explorar os sentimentos dos personagens.  

    Essa limitação impede que a série alcance a mesma potência emocional de produções como Adolescence ou Toxic Town, frequentemente citadas como referências recentes do catálogo britânico da plataforma.  

    A repercussão do público e da crítica

    A recepção crítica tem sido majoritariamente positiva. Muitos veículos elogiaram a sensibilidade da abordagem e a decisão de colocar as vítimas no centro da narrativa, evitando cenas gráficas ou sensacionalistas.  

    Também chamou atenção a participação de André e Alex Hanscombe no desenvolvimento da série, ajudando a garantir autenticidade ao relato.  

    Entre o público, a principal reação parece ser de surpresa. Muitos espectadores esperavam um suspense criminal tradicional e encontraram uma obra mais reflexiva, focada no impacto humano da violência. Isso pode frustrar quem procura um thriller acelerado, mas tende a agradar quem valoriza dramas baseados em personagens.

    Vale a pena assistir?

    Sem dúvida.

    A Testemunha demonstra que ainda existe espaço para produções de true crime que não dependem de violência explícita ou reviravoltas chocantes para prender a atenção. Ao priorizar o sofrimento dos sobreviventes e os efeitos duradouros do trauma, a série encontra uma identidade própria dentro de um gênero cada vez mais saturado.

    Não possui o mesmo impacto cultural de fenômenos recentes da Netflix, nem a complexidade narrativa das melhores produções britânicas dos últimos anos, mas entrega uma história emocionante, bem interpretada e respeitosa com os acontecimentos reais.

    O texto A Testemunha transforma um crime real em um poderoso drama sobre trauma e sobrevivência foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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