Domênica Montero se despede do SBT: novela teve protagonista forte, mas não encontrou o público que merecia - (crédito: Obeservatório da TV)
Chegou ao fim nesta quarta-feira (10) a novela Domênica Montero, uma das principais apostas do SBT para fortalecer sua tradicional faixa de novelas mexicanas no horário nobre. Exibida em uma versão compacta de apenas 43 capítulos, a produção protagonizada por Angelique Boyer encerra sua passagem pela emissora deixando uma impressão curiosa: artisticamente consistente e bem produzida, mas incapaz de transformar sua qualidade em grandes índices de audiência.
Baseada no clássico folhetim que inspirou versões como A Dona e Soy Tu Dueña, a trama apostou em uma protagonista feminina forte, marcada pela dor, pelo orgulho e pela busca de redenção. A fórmula já se mostrou eficiente diversas vezes na dramaturgia mexicana, mas desta vez encontrou um cenário de televisão aberta muito diferente daquele que consagrou novelas do gênero no Brasil.
Angelique Boyer mais uma vez mostrou por que é uma das maiores estrelas da Televisa
Se existe um aspecto praticamente incontestável em Domênica Montero, é a entrega de Angelique Boyer ao papel principal.
A atriz construiu uma personagem complexa, que transitava entre a fragilidade emocional e a força quase implacável adquirida após as humilhações sofridas no início da história. O arco da jovem abandonada no altar que se transforma na poderosa proprietária da fazenda La Abandonada funcionou justamente porque Boyer soube evitar caricaturas.
Em vários momentos, a novela remeteu a outras heroínas marcantes da atriz, mas sem parecer uma repetição. Houve personalidade própria na construção de Domênica, especialmente nas cenas em que a personagem precisava equilibrar vingança, orgulho e desejo de amar novamente.
Marcus Ornellas também cumpriu bem seu papel como Luís Fernando, oferecendo o contraponto romântico necessário para sustentar a narrativa, enquanto Scarlet Gruber entregou uma antagonista eficiente, embora nem sempre tão memorável quanto outras vilãs recentes da dramaturgia mexicana.
Uma novela clássica em um mercado que mudou
Talvez o principal problema de Domênica Montero não tenha sido a novela em si, mas o contexto em que ela foi exibida.
O público brasileiro que acompanhava novelas mexicanas diariamente nos anos 1990 e 2000 envelheceu, migrou para plataformas digitais ou passou a consumir conteúdo sob demanda. Ao mesmo tempo, as novas gerações não desenvolveram o mesmo hábito de acompanhar folhetins internacionais na TV aberta.
Isso explica por que uma produção visualmente superior a muitas novelas mexicanas exibidas pelo SBT nos últimos anos não conseguiu alcançar números expressivos.
A estreia já havia ficado abaixo das expectativas da emissora, sem atingir sequer três pontos em alguns mercados, e a trajetória foi marcada por oscilações constantes.
Ainda assim, a novela apresentou desempenho ligeiramente superior ao de sua antecessora durante boa parte da exibição, demonstrando que o produto encontrou uma parcela fiel de telespectadores.
A reta final provou que a história tinha potencial
Curiosamente, os melhores momentos de audiência aconteceram justamente nas últimas semanas.
Com o aumento da tensão dramática e a aproximação do desfecho dos conflitos centrais, a novela registrou crescimento de público e alcançou seus melhores índices próximos ao encerramento. Em maio, chegou a bater recordes da própria trajetória e apresentou evolução em relação às semanas anteriores.
Dados divulgados por veículos especializados apontam que o folhetim chegou a atingir médias acima de 3 pontos e picos superiores a 4 em seus melhores dias, números modestos quando comparados ao passado do SBT, mas significativos dentro da realidade atual da emissora.
A reação do público nas redes sociais também melhorou consideravelmente na reta final. Muitos telespectadores passaram a elogiar o ritmo mais ágil dos capítulos derradeiros e o amadurecimento da protagonista ao longo da narrativa.
Uma despedida digna, mas sem status de fenômeno
No balanço geral, Domênica Montero termina sua exibição como uma novela que dificilmente será lembrada como um grande fenômeno de audiência, mas que também está longe de representar um fracasso artístico.
Foi uma produção elegante, bem interpretada e fiel à tradição melodramática mexicana. Faltou apenas o elemento que transforma uma novela em fenômeno popular: a capacidade de mobilizar grandes massas de espectadores diariamente.
O encerramento deixa uma lição importante para o SBT. Ainda existe espaço para novelas mexicanas na programação da emissora, mas talvez seja necessário encontrar estratégias mais eficientes de divulgação, distribuição e engajamento para conectar essas produções ao público contemporâneo.
Domênica Montero sai de cena sem ter revolucionado a audiência do canal, mas deixa a sensação de que entregou mais qualidade do que os números foram capazes de refletir.
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