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    postado em 22/06/2026 12:11

    A reprise de Além do Tempo na TV Globo reforça uma percepção que já existia desde sua exibição original: a novela de Elizabeth Jhin foi uma das experiências mais ousadas e bem-sucedidas da teledramaturgia brasileira nos últimos anos. Em uma televisão frequentemente acusada de repetir fórmulas, a autora conseguiu fazer justamente o contrário inovou sem perder a essência popular das novelas.

    Além do Tempo talvez tenha sido a prova definitiva de que o público aceita, sim, narrativas diferentes, desde que exista verdade emocional, qualidade técnica e personagens capazes de gerar identificação. A novela arriscou ao apresentar praticamente duas histórias em uma única obra. Primeiro, mergulhou em um sofisticado drama de época ambientado no século XIX. Depois, promoveu uma ruptura radical ao avançar 150 anos no futuro e transformar completamente sua ambientação, mantendo os mesmos atores, os mesmos nomes e os mesmos conflitos espirituais.

    Era um risco enorme. E justamente por isso o sucesso impressiona até hoje.

    O mais interessante é que Além do Tempo nunca tratou sua proposta espiritualista como mero artifício fantasioso. A reencarnação, tema central da novela, funciona como extensão emocional da narrativa. Elizabeth Jhin utiliza o espiritismo não apenas como elemento místico, mas como ferramenta para discutir evolução humana, culpa, obsessão, perdão e segundas chances.

    Nesse sentido, a novela dialoga diretamente com produções marcantes da dramaturgia brasileira, como A Viagem, mas encontra identidade própria ao apostar em um tom mais contemplativo, elegante e melancólico. Enquanto muitas novelas dependem de reviravoltas frenéticas e conflitos exagerados para prender atenção, Além do Tempo prefere trabalhar silêncios, olhares e emoções internas.

    E talvez esteja aí seu maior diferencial.

    A história de amor entre Lívia e Felipe, interpretados por Alinne Moraes e Rafael Cardoso, atravessa vidas, épocas e tragédias, mas nunca perde humanidade. Mesmo cercado por elementos típicos do melodrama clássico famílias rivais, amor proibido, vilões obsessivos e diferenças sociais o casal central consegue escapar da superficialidade graças à delicadeza do texto e à entrega dos atores.

    Visualmente, Além do Tempo também permanece impressionante. A primeira fase da novela apresentou uma produção de época extremamente refinada, com cenários grandiosos, figurinos sofisticados e fotografia cinematográfica. Já a segunda fase trouxe modernidade sem abandonar o requinte visual. A direção de Rogério Gomes conseguiu manter unidade estética mesmo diante de uma mudança narrativa tão brusca.

    O elenco foi outro pilar fundamental do sucesso. Irene Ravache construiu uma Vitória memorável, misturando arrogância, fragilidade e ressentimento em uma composição sofisticada. Já Ana Beatriz Nogueira entregou uma Emília intensa, dolorida e emocionalmente complexa, em uma das atuações mais impactantes da novela.

    Mas o grande momento de Além do Tempo e talvez um dos mais belos da dramaturgia brasileira recente continua sendo o encerramento da primeira fase. A sequência de Lívia e Felipe morrendo abraçados após despencarem de um penhasco rumo ao mar sintetiza perfeitamente a proposta da novela: amor, tragédia, espiritualidade e poesia visual reunidos em uma cena de forte impacto cinematográfico.

    É justamente por cenas como essa que Além do Tempo permanece viva na memória afetiva do público. A novela não apenas contou uma história de amor. Ela construiu uma experiência emocional rara dentro da televisão aberta.

    Em tempos de narrativas aceleradas e produções preocupadas em viralizar diariamente nas redes sociais, revisitar Além do Tempo provoca quase uma sensação de nostalgia. Nostalgia de uma dramaturgia mais paciente, autoral e emocionalmente sofisticada.

    E talvez seja exatamente isso que transforme a novela em algo tão especial até hoje.

    O texto Além do Tempo desafiou fórmula das novelas da Globo e mostrou como ousadia pode virar clássico foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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