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    postado em 25/06/2026 11:29

    Quando uma produção chega assinada pela Left Bank Pictures, responsável por The Crown, a expectativa naturalmente é elevada. Afinal, o estúdio consolidou um padrão de excelência em dramas históricos, combinando rigor visual, interpretações refinadas e uma narrativa capaz de humanizar personagens ligados à monarquia britânica. Em The Lady, disponível no Prime Video, BritBox e também exibida pelo canal AXN, essa qualidade técnica permanece praticamente intacta. O problema é que o mesmo não pode ser dito da forma como a história é contada.  

    Inspirada no caso real de Jane Andrews, ex-assessora de vestuário de Sarah Ferguson, Duquesa de York, condenada pelo assassinato do namorado em 2001, a minissérie de quatro episódios reconstrói a ascensão e a queda de uma mulher fascinada pelo universo da realeza e consumida pela obsessão por status, reconhecimento e pertencimento. Como toda dramatização baseada em fatos, a obra assume liberdades criativas e deixa claro que determinados personagens e acontecimentos foram adaptados para fins dramáticos.  

    O maior mérito da produção está justamente onde se esperava. O acabamento técnico é impecável. Figurinos, direção de arte, fotografia e reconstrução da Londres dos anos 1980 e 1990 demonstram o mesmo cuidado estético que consagrou The Crown. A série é elegante visualmente, possui ritmo consistente e nunca transmite a sensação de uma produção televisiva modesta.

    No elenco, Mia McKenna-Bruce entrega uma atuação complexa e emocionalmente convincente. Sua Jane Andrews oscila entre fragilidade, ambição, carência afetiva e descontrole psicológico sem recorrer a exageros fáceis. A atriz consegue fazer o espectador compreender ainda que jamais justificar as motivações da personagem.

    Também merece destaque Natalie Dormer como Sarah Ferguson. Embora apareça menos do que muitos imaginavam, sua presença funciona quase como um símbolo daquele universo aristocrático inalcançável que alimenta os desejos da protagonista.

    É justamente nesse contraste entre o brilho da monarquia e a deterioração psicológica de Jane que The Lady encontra seus momentos mais interessantes.

    Entre o drama psicológico e o sensacionalismo

    O grande problema surge quando a série parece não decidir qual história realmente deseja contar.

    Em vários momentos, ela se aproxima de um estudo psicológico sobre uma mulher emocionalmente instável, pressionada por expectativas sociais e por um ambiente extremamente elitista. Logo em seguida, porém, abandona essa profundidade para investir numa narrativa muito mais próxima do true crime sensacionalista.

    Essa foi, aliás, uma das principais críticas da imprensa internacional.

    A Variety classificou a produção como bem conduzida, porém difícil de assistir justamente pela maneira como transforma uma figura profundamente problemática em centro de um espetáculo dramático.  

    Já o The Guardian foi ainda mais duro, descrevendo a minissérie como uma mistura desconfortável entre novela sobre a família real, investigação policial e drama criminal, criticando principalmente o tratamento considerado pouco sensível de um caso real extremamente traumático.  

    O ScreenRant também apontou que, apesar da competência técnica, a produção levanta dúvidas sobre a necessidade de revisitar um crime tão doloroso apenas para transformá-lo em entretenimento.  

    O público ficou dividido

    A repercussão entre os espectadores acompanha essa divisão da crítica.

    Boa parte do público elogiou a qualidade da produção, a atuação de Mia McKenna-Bruce e o padrão cinematográfico da minissérie. Também houve reconhecimento pelo cuidado visual e pela reconstrução de época.

    Por outro lado, muitos espectadores questionaram o foco excessivo na figura de Sarah Ferguson e o desequilíbrio na construção do caso criminal, deixando o ponto de vista da vítima em segundo plano.

    Essa divisão também aparece no consenso dos agregadores de críticas, onde The Lady recebeu avaliações medianas. Enquanto alguns veículos destacam a força das atuações e o refinamento técnico, outros apontam problemas estruturais na narrativa e na abordagem ética do caso real.  

    A comparação com The Crown é inevitável e desfavorável

    A publicidade da série naturalmente faz o público associá-la a The Crown.

    Embora compartilhem a mesma produtora, as diferenças aparecem rapidamente.

    The Crown utilizava a família real como ponto de partida para discutir política, história, poder e relações humanas. Já The Lady reduz boa parte desse universo ao fascínio da celebridade e do luxo.

    Em vez de aprofundar o funcionamento da máquina da monarquia britânica, a série parece muito mais interessada em mostrar seu brilho externo e o impacto psicológico que esse ambiente provoca em quem tenta desesperadamente fazer parte dele.

    É uma abordagem válida, mas muito menos sofisticada.

    Vale a pena assistir?

    Sim.

    Especialmente para quem aprecia dramas britânicos, produções baseadas em crimes reais e histórias ligadas à monarquia.

    Mas convém ajustar as expectativas.

    Quem espera encontrar uma sucessora espiritual de The Crown provavelmente sairá frustrado. Apesar do pedigree da Left Bank Pictures, The Lady está muito mais próxima de um thriller psicológico com elementos de true crime do que de um grande drama histórico.

    Ainda assim, graças à excelente produção, ao elenco inspirado e ao desempenho marcante de Mia McKenna-Bruce, a minissérie consegue prender a atenção durante seus quatro episódios.

    Seu maior defeito não está na execução, mas na escolha narrativa: ao privilegiar o espetáculo em detrimento da reflexão, transforma uma tragédia humana complexa em um drama elegante, porém emocionalmente menos profundo do que poderia ser.

    O texto The Lady: o drama dos criadores de The Crown que troca a sofisticação pela exploração do escândalo foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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