Alexandre Borges faz de Ulisses Brandão um vilão construído pela fragilidade, não pela maldade - (crédito: Obeservatório da TV)
Há atores que dominam a arte de interpretar personagens essencialmente bons. Outros se especializam em vilões caricatos, de gestos largos e frases de efeito. Alexandre Borges pertence a um grupo mais raro: o daqueles capazes de encontrar humanidade até mesmo nos personagens moralmente ambíguos. Em Quem Ama Cuida, o ator confirma novamente essa característica ao dar vida a Ulisses Brandão, um homem derrotado pelas próprias escolhas, consumido pela compulsão, pela inveja e pelo medo constante de perder o status social que nunca conseguiu conquistar por mérito próprio.
Longe de ser apenas mais um antagonista da história escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Ulisses tornou-se um dos personagens psicologicamente mais interessantes da novela. Muito desse resultado passa diretamente pela interpretação de Alexandre Borges, que entrega um trabalho elegante, contido e tecnicamente refinado, sustentando cenas de grande intensidade emocional sem recorrer ao excesso. O personagem foi concebido como um homem dependente financeiramente do irmão Arthur Brandão, fracassado nos negócios e vítima da compulsão por apostas, tema que o próprio ator destacou como um importante debate social durante a divulgação da novela.
Um vilão frágil e essencialmente humano
O maior mérito da atuação de Alexandre Borges está justamente em evitar transformar Ulisses em um vilão convencional.
Embora o personagem participe das disputas pela fortuna dos Brandão, esconda mentiras da família e tome decisões moralmente condenáveis, Borges nunca o interpreta como alguém movido exclusivamente pela ambição. Existe medo. Existe vergonha. Existe humilhação. E, principalmente, existe um enorme sentimento de inferioridade diante do irmão Arthur e da irmã Pilar.
Cada olhar perdido, cada hesitação antes de mentir e cada explosão emocional revelam um homem completamente desestruturado psicologicamente. É justamente essa camada de vulnerabilidade que impede Ulisses de se tornar unidimensional.
Mesmo quando o personagem toma atitudes condenáveis, o público consegue compreender embora não justificar o caminho que o levou até ali.
Essa construção dramática demonstra o enorme domínio técnico do ator sobre os pequenos gestos, algo que muitas vezes passa despercebido, mas faz enorme diferença na credibilidade da interpretação.
A química com Isabel Teixeira eleva ainda mais o núcleo Brandão
Grande parte da força dramática do núcleo dos Brandão nasce da interação entre Alexandre Borges e Isabel Teixeira.
Os dois atores criam uma relação marcada por ressentimentos antigos, rivalidade silenciosa e interesses financeiros comuns, mas nunca totalmente alinhados.
Enquanto Pilar é impulsiva, explosiva e movida pela necessidade de controle, Ulisses funciona quase como um contraponto emocional: mais inseguro, mais vacilante e permanentemente acuado.
Essa diferença de energia faz com que as cenas entre os irmãos tenham enorme dinamismo.
Da mesma forma, Alexandre Borges encontra excelente sintonia com Flávia Alessandra nas sequências familiares e também com Antonio Fagundes nos capítulos iniciais, quando ficava evidente o sentimento de inferioridade que Ulisses nutria pelo irmão mais velho.
Um trabalho diferente dos grandes sucessos da carreira
Ao longo de mais de três décadas na televisão, Alexandre Borges construiu uma das trajetórias mais consistentes da dramaturgia brasileira.
O público costuma associá-lo imediatamente a personagens marcantes como o sedutor Jacques Leclair, de Ti Ti Ti (2010), ou ao inesquecível Cadinho, de Avenida Brasil (2012), papel que exigia enorme tempo cômico para equilibrar humor, romance e situações absurdas.
Também merece destaque seu trabalho em Laços de Família (2000), Belíssima (2005), Celebridade (2003), Caminho das Índias (2009), Verão 90 (2019) e, mais recentemente, Elas por Elas (2023), onde voltou ao horário nobre após alguns anos afastado das novelas.
Ulisses, porém, pertence a uma categoria diferente. Não há espaço para o humor sofisticado de Cadinho nem para o charme debochado de Jacques Leclair. Aqui, Alexandre Borges trabalha quase exclusivamente com o drama psicológico.
Seu personagem carrega derrotas acumuladas, vive aprisionado em frustrações pessoais e tenta desesperadamente preservar uma imagem de sucesso que já não existe. É uma atuação menos expansiva, porém muito mais introspectiva.
Talvez justamente por isso seja um dos trabalhos mais maduros de sua carreira recente.
Um retrato atual de uma realidade brasileira
Outro ponto positivo da construção de Ulisses está na abordagem da compulsão em apostas. A novela evita tratar o vício apenas como um recurso para movimentar a trama policial.
Ao contrário, apresenta o problema como uma doença capaz de destruir famílias, patrimônios e relações pessoais, tema bastante atual diante do crescimento das apostas esportivas no Brasil. O próprio Alexandre Borges destacou que a compulsão vai muito além dos jogos e pode assumir diferentes formas na vida cotidiana.
Nesse aspecto, a interpretação do ator contribui para que o tema seja tratado com mais complexidade e menos estereótipos.
Repercussão positiva entre crítica e público
Desde a estreia da novela, Alexandre Borges tem recebido elogios tanto da crítica especializada quanto de boa parte do público nas redes sociais.
Analistas destacaram a elegância da composição do personagem, ressaltando a capacidade do ator de transformar o fracasso silencioso de Ulisses em um dos conflitos mais interessantes da trama.
Nas redes sociais, muitos espectadores apontam que o personagem desperta sentimentos contraditórios: ao mesmo tempo em que provoca indignação pelas atitudes, também desperta compaixão pela fragilidade emocional que demonstra em diversos momentos.
Esse tipo de reação costuma ser um dos maiores indicadores de sucesso de uma interpretação.
Veredito
Alexandre Borges talvez não esteja vivendo o personagem mais popular de sua carreira, mas certamente interpreta um dos mais sofisticados. Ulisses Brandão não foi construído para conquistar o público pelo carisma, e sim pela complexidade.
Em tempos em que muitas novelas optam por personagens excessivamente didáticos, Alexandre Borges aposta justamente no caminho oposto: o da sutileza. Seu trabalho impressiona porque não depende de grandes discursos, cenas espalhafatosas ou explosões constantes. Basta um olhar constrangido, um sorriso nervoso ou alguns segundos de silêncio para revelar tudo aquilo que Ulisses tenta esconder do mundo.
É uma atuação segura, madura e extremamente consistente, confirmando que Alexandre Borges permanece entre os atores mais completos da televisão brasileira. Se mantiver esse nível até o desfecho de Quem Ama Cuida, Ulisses Brandão certamente figurará entre os personagens mais relevantes de sua extensa galeria de trabalhos na dramaturgia nacional.
O texto Alexandre Borges faz de Ulisses Brandão um vilão construído pela fragilidade, não pela maldade foi publicado primeiro no Observatório da TV.
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