Jogada de Risco estreia no Globoplay explorando o lado obscuro do futebol, mas precisa provar que tem fôlego além do elenco estrelado - (crédito: Obeservatório da TV)
Jogada de Risco chegou ao Globoplay nesta quinta-feira, 23 de julho de 2026, com uma proposta tão atraente quanto potencialmente perigosa: transformar os bastidores do futebol profissional em matéria-prima para um drama adulto sobre dinheiro, poder, sexo, ambição, corrupção moral e relações pessoais. Idealizada e protagonizada por Cauã Reymond, a produção começa demonstrando que existe uma boa série escondida justamente onde o torcedor normalmente não consegue enxergar.
Em vez de concentrar sua narrativa nas partidas, a produção prefere investigar aquilo que Cauã definiu como o jogo por trás do jogo: empresários, contratos milionários, patrocinadores, dirigentes, jornalistas, agentes, festas, interesses e negociações capazes de determinar o destino de atletas antes mesmo de a bola entrar em campo. É uma escolha acertada.
O futebol já foi explorado inúmeras vezes pelo audiovisual brasileiro, mas com frequência sob o olhar documental, biográfico ou esportivo. Jogada de Risco tenta transformar essa indústria em cenário para uma espécie de thriller dramático, e é justamente aí que reside sua personalidade.
Cauã Reymond encontra em Maurício um protagonista feito de fracassos e ambição
Cauã Reymond interpreta Maurício, ex-atacante cuja trajetória profissional foi abreviada por lesões e pela administração malsucedida de sua carreira pelo próprio pai, Valdemar, vivido por Marcos Frota.
Fora dos gramados, Maurício tenta encontrar a vitória que não conseguiu alcançar como jogador. Agora como agente esportivo, precisa administrar talentos, negociar contratos e sobreviver em um mercado no qual praticamente todas as relações parecem possuir um preço.
Ao lado dele está Cris, personagem de Mariana Sena, advogada inteligente, determinada e ambiciosa que se transforma em peça fundamental da agência. Entre os clientes estão jovens jogadores como Luan (Juan Paiva), Geraldo (Breno Ferreira) e Vítor (Cauê Campos). É interessante perceber que a série não procura transformar Maurício simplesmente em herói.
Ele circula por uma zona moralmente cinzenta, característica fundamental para uma produção que pretende discutir justamente um ambiente no qual interesses econômicos e afetivos frequentemente se confundem.
Cauã funciona melhor quando permite que o personagem demonstre suas fragilidades. O ator já construiu inúmeros protagonistas baseados em segurança, charme e presença física; aqui, porém, Maurício se torna mais interessante quando essas características entram em conflito com a frustração de alguém que precisa conviver diariamente com aquilo que poderia ter sido.
O grande acerto está fora do campo
O principal mérito de Jogada de Risco em sua largada é entender que não precisa ser uma série sobre futebol para falar sobre futebol. A modalidade esportiva funciona quase como uma grande empresa.
Jogadores são talentos, mas também ativos milionários. Existem empresários, advogados, patrocinadores, dirigentes, imprensa, famílias e intermediários disputando espaço em torno de atletas que muitas vezes são extremamente jovens. Ao colocar essas relações no centro da narrativa, a série encontra terreno fértil para discutir poder.
A escolha também amplia seu público potencial. Não é necessário compreender esquemas táticos, campeonatos ou regras esportivas para acompanhar a história. O futebol funciona como ambiente, enquanto os conflitos são universais: dinheiro, família, vingança, desejo, fracasso e ambição.
Letícia Colin surge como uma das figuras mais interessantes da trama
Entre tantos personagens, Rita tem potencial para se transformar em um dos maiores destaques da produção.
Vivida por Letícia Colin, ela é uma ex-profissional do sexo que atualmente organiza festas privadas para jogadores e empresários. Impedida de se aproximar do próprio filho, Rita aceita a ajuda de Fernando para enfrentar uma disputa judicial. Em contrapartida, passa a atuar como informante dentro do universo de Maurício.
A personagem reúne elementos suficientes para facilmente cair no estereótipo da mulher fatal. É justamente aí que Letícia Colin faz diferença.
A atriz possui capacidade incomum de acrescentar vulnerabilidade a personagens intensas. Rita utiliza sexualidade, inteligência e conhecimento daquele ambiente como instrumentos de sobrevivência, mas existe uma dimensão emocional que impede que ela seja reduzida apenas à sensualidade.
A própria produção assume uma abordagem adulta para sexualidade. Letícia chegou a definir Jogada de Risco como uma série que libera erotismo e não julga desejos.
Essa liberdade combina com o universo retratado, desde que o sexo permaneça associado à construção dos personagens e das relações de poder, e não seja utilizado simplesmente como recurso para provocar audiência.
Marcelo Adnet em registro diferente merece atenção
Outra escolha curiosa está na escalação de Marcelo Adnet como Fernando Veiga. Conhecido principalmente pela comédia, Adnet assume um personagem dramático e potencialmente ameaçador. Fernando também é ex-jogador e responsabiliza Maurício pela contusão que prejudicou sua trajetória profissional. Agora poderoso, utiliza influência para sabotar o rival.
É uma escalação que funciona justamente pelo contraste. O espectador conhece tão bem o Adnet humorista que existe certo estranhamento inicial diante de sua presença em um drama. Mas esse desconforto pode trabalhar a favor do personagem.
Fernando ainda movimenta duas peças importantes: a jornalista Regiane, vivida por Maria Bopp, e Rita, utilizada como informante para atingir Maurício. Surge assim uma teia de relações que dá à série algo mais interessante do que simplesmente a disputa entre dois antigos jogadores.
Mulheres fortes ajudam a evitar um universo exclusivamente masculino
Outro ponto positivo é a tentativa de não transformar uma história sobre futebol em desfile de personagens masculinos. Cris, Rita, Regiane e Daniele ocupam posições bastante diferentes dentro desse ambiente.
Mariana Sena interpreta Cris como uma advogada assertiva e ambiciosa; Maria Bopp vive a jornalista Regiane; Letícia Colin constrói Rita a partir da mistura entre poder e vulnerabilidade; enquanto Bruna Griphao interpreta Daniele, garota de programa que circula entre jogadores e utiliza a sensualidade como instrumento dentro daquele universo.
O desafio será descobrir, ao longo dos oito episódios, se essas mulheres realmente possuirão autonomia narrativa ou se acabarão funcionando prioritariamente como elementos destinados a movimentar os conflitos dos homens. Os episódios iniciais indicam potencial para a primeira alternativa.
Marcos Frota ganha personagem distante de sua imagem mais conhecida
A presença de Marcos Frota como Valdemar também merece atenção. Pai de Maurício e responsável pela administração problemática da carreira do filho no passado, ele funciona como representação de uma questão importante no futebol: até onde termina a relação familiar e começa a relação profissional?
Existe entre pai e filho uma dívida que evidentemente não é apenas financeira. Para Maurício, tentar vencer como empresário também significa, em alguma medida, corrigir o próprio passado. Essa relação acrescenta dimensão emocional a uma trama que poderia facilmente se perder entre contratos, festas e negociações.
A direção aposta em atmosfera adulta
Com direção artística de Bruno Safadi, desenvolvimento de Thiago Dottori e Cauã Reymond e supervisão de texto de Lucas Paraizo, Jogada de Risco apresenta uma identidade mais adulta do que a dramaturgia convencional da televisão aberta.
A fotografia, os ambientes noturnos, as festas e o universo de luxo ajudam a criar uma atmosfera na qual dinheiro e desejo parecem constantemente misturados. Existe uma intenção clara de mostrar glamour sem necessariamente glorificá-lo.
E isso é importante. O futebol apresentado pela série pode produzir milionários, celebridades e ídolos, mas também fabrica frustrações, dívidas, dependências e relações extremamente desiguais de poder.
O risco: querer mostrar todos os pecados do futebol ao mesmo tempo
Se existe um problema perceptível na proposta de Jogada de Risco, ele está justamente na quantidade de assuntos que a produção pretende abarcar.
Empresários inescrupulosos, exploração de jogadores, sexualidade, prostituição de luxo, imprensa, rivalidades, corrupção moral, relações familiares, contratos, dinheiro, festas e influência formam um universo enorme.
Em oito episódios, existe o perigo de algumas dessas questões aparecerem apenas superficialmente. A produção também precisa tomar cuidado para não transformar os bastidores do futebol em uma sucessão de clichês envolvendo sexo, dinheiro e corrupção.
O futebol profissional certamente possui tudo isso, mas possui igualmente trabalhadores, famílias, jovens pressionados pela expectativa de ascensão social e atletas transformados precocemente em responsáveis financeiros por dezenas de pessoas.
Quando Jogada de Risco olha para esses seres humanos, torna-se mais interessante do que quando simplesmente tenta revelar um suposto lado proibido do esporte.
E a repercussão do público?
Aqui é necessário cautela. Jogada de Risco estreou nesta quinta-feira (23), portanto ainda é cedo para falar em aprovação ou rejeição consolidada. Até o momento da publicação desta análise, plataformas como o IMDb ainda não apresentavam quantidade suficiente de avaliações de usuários para estabelecer uma nota representativa.
A divulgação anterior à estreia, entretanto, conseguiu despertar curiosidade principalmente pela presença de Cauã Reymond acumulando funções no projeto, pela transformação dramática de Marcelo Adnet, pelo personagem de Letícia Colin e pelo elenco numeroso.
A participação de Cauã no Domingão com Huck, dias antes da estreia, também provocou repercussão ao mencionar as casas de apostas enquanto discutia aspectos controversos ligados ao futebol contemporâneo.
É cedo, portanto, para decretar sucesso de público. O desempenho deverá ser observado ao longo das próximas semanas, especialmente porque o Globoplay optou pelo lançamento semanal, com dois episódios disponibilizados por vez.
Veredito
Jogada de Risco tem uma boa estreia porque entende que o futebol brasileiro é grande demais para caber dentro das quatro linhas.
A série possui elenco forte, temática comercial e um universo pouco explorado pela ficção nacional recente. Cauã Reymond demonstra ambição ao transformar uma ideia própria em projeto no qual também atua e participa da direção.
Mas o melhor caminho da produção não está necessariamente nas festas luxuosas, no erotismo ou nas revelações supostamente escandalosas sobre os bastidores do esporte. Está nas pessoas.
Maurício tentando reconstruir a identidade depois de fracassar como jogador. Rita utilizando os instrumentos disponíveis para sobreviver e recuperar espaço na vida do filho. Jovens atletas tentando administrar fama e dinheiro. Um pai carregando consequências das decisões tomadas sobre a carreira do próprio filho.
Quando encontra essas histórias, Jogada de Risco deixa de ser simplesmente uma série sobre o lado obscuro do futebol e começa a se transformar em um drama sobre pessoas negociando sonhos em um mercado no qual quase tudo possui valor financeiro.
Os dois primeiros episódios ainda não permitem determinar se a série conseguirá desenvolver todas as suas promessas até o final. Mas a escalação é interessante, o universo possui enorme potencial dramático e a produção demonstra personalidade suficiente para justificar acompanhar as próximas rodadas.
Jogada de Risco começa a partida em vantagem. Agora precisa provar que, além de uma escalação estrelada e uma premissa provocativa, também possui jogo para chegar bem aos minutos finais.
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