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    postado em 06/08/2026 13:43

    No dia 19 de agosto de 1981, Silvio Santos inaugurava oficialmente o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Quarenta e cinco anos depois, a emissora ocupa um lugar que poucas empresas de comunicação conseguiram conquistar: tornou-se muito mais do que um canal de televisão. Para milhões de brasileiros, o SBT representa uma memória afetiva, um símbolo da infância, da adolescência e da convivência em família.

    Ao longo de sua trajetória, a emissora revelou artistas, lançou formatos inovadores, popularizou novelas mexicanas, transformou programas de auditório em fenômenos nacionais e criou uma identidade própria que jamais foi confundida com a de qualquer concorrente. O problema é que uma história grandiosa, por si só, não garante um futuro igualmente grandioso.

    Hoje, o maior desafio do SBT não é preservar seu passado. É provar que ainda consegue escrever novos capítulos relevantes.

    A emissora que ousou fazer televisão diferente

    Desde sua fundação, Silvio Santos deixou claro que o SBT não tentaria copiar a Globo. A proposta era oferecer uma televisão popular, simples, acessível e voltada para toda a família.

    Foi dessa filosofia que nasceram marcas históricas como Programa Silvio Santos, Domingo Legal, Show do Milhão, Casa dos Artistas, Fantasia, Bom Dia & Cia, Passa ou Repassa, Viva a Noite, Topa Tudo por Dinheiro, Hebe, A Praça é Nossa, além das novelas mexicanas e o seriado Chaves que ajudaram a formar gerações de telespectadores.

    Mesmo quando possuía menos recursos financeiros que seus concorrentes, o SBT compensava essa limitação com criatividade, espontaneidade e personalidade. A emissora tinha identidade. O público sabia exatamente o que encontraria ao ligar a televisão. Essa talvez tenha sido sua maior virtude.

    O auge que virou referência

    Os anos 1990 e o início dos anos 2000 representam, para muitos especialistas em televisão, o período mais brilhante da história do SBT. Foi quando a emissora alcançou resultados históricos de audiência, enfrentou a Globo em diversos horários e protagonizou momentos que entraram para a cultura popular brasileira.

    A final da primeira edição de Casa dos Artistas tornou-se um dos maiores acontecimentos da televisão nacional. O Domingo Legal de Gugu Liberato frequentemente ameaçava a liderança dominical. Chiquititas transformou-se em fenômeno entre crianças e adolescentes. As novelas mexicanas consolidaram uma faixa praticamente imbatível. O Show do Milhão virou assunto nacional e mudou a forma como programas de perguntas e respostas eram produzidos no país.

    Mais importante do que os números, o SBT criava acontecimentos. Seus programas extrapolavam a televisão e passavam a fazer parte das conversas do dia seguinte nas escolas, nos escritórios e nas ruas. Era uma emissora que surpreendia.

    A nostalgia não pode ser estratégia

    Talvez nenhum canal brasileiro desperte tanta nostalgia quanto o SBT. Basta observar as redes sociais para perceber que grande parte do público recorda com carinho programas antigos, vinhetas, chamadas, apresentadores e até intervalos comerciais.

    Essa memória afetiva é um patrimônio valioso. Mas também pode se tornar uma armadilha.

    Nos últimos anos, a emissora passou a recorrer frequentemente ao próprio passado como principal ativo de comunicação. Especiais comemorativos, reprises, quadros clássicos e homenagens funcionam muito bem para reforçar a identidade da marca, mas dificilmente são suficientes para reconquistar relevância de forma permanente.

    A televisão vive de novidade. O público pode até voltar para rever uma lembrança, mas permanece quando encontra algo novo que desperte interesse. É justamente aí que o SBT ainda parece enfrentar sua maior dificuldade.

    A televisão mudou. O público também.

    Durante décadas, disputar audiência significava enfrentar Globo, Record e Band. Hoje, a concorrência é muito maior. Netflix, Prime Video, Disney+, Max, YouTube, TikTok, Instagram e diversas outras plataformas disputam o mesmo tempo disponível do espectador.

    Nesse cenário, não basta produzir uma boa programação linear. É preciso pensar em conteúdos que circulem entre diferentes plataformas, gerem repercussão digital e dialoguem com novas formas de consumo.

    O telespectador deixou de ser apenas espectador. Agora comenta, compartilha, produz conteúdo e influencia outros usuários. Essa transformação exige velocidade, planejamento e inovação constantes.

    É uma realidade que atinge todas as emissoras, mas pesa ainda mais sobre aquelas que enfrentam limitações orçamentárias e dificuldades para investir em grandes produções.

    O vazio deixado por Silvio Santos

    A morte de Silvio Santos encerrou um dos capítulos mais importantes da comunicação brasileira. Sua presença transcendia a função de apresentador. Ele era empresário, estrategista, diretor artístico e, muitas vezes, o principal responsável pelas decisões que definiam os rumos da emissora.

    Naturalmente, sua ausência criou um enorme desafio. Não porque seja impossível substituir um líder afinal, nenhuma empresa pode depender eternamente de uma única pessoa , mas porque a sucessão exige algo além da preservação de um legado. É preciso reinterpretá-lo.

    A administração da família Abravanel tem demonstrado preocupação em preservar os valores construídos por Silvio, o que é compreensível e até desejável. Entretanto, preservar não significa congelar.

    O maior ensinamento deixado pelo fundador talvez tenha sido justamente a capacidade de mudar. Ao longo de décadas, Silvio reformulou programas, alterou grades de programação, assumiu riscos e lançou formatos inéditos sempre que acreditava ser necessário.

    Paradoxalmente, honrar seu legado pode significar fazer exatamente aquilo que ele mais gostava: experimentar.

    Crise de audiência, criatividade e posicionamento

    Os últimos anos evidenciaram dificuldades em diferentes áreas. A audiência caiu para patamares inéditos em diversos horários, o mercado publicitário tornou-se mais competitivo, investimentos passaram a ser mais seletivos e a programação frequentemente transmitiu a sensação de constante reconstrução.

    Mudanças sucessivas de grade, estreias interrompidas rapidamente e reposicionamentos frequentes dificultaram a consolidação de uma identidade clara. Mais do que uma crise de audiência, o SBT vive uma crise de posicionamento.

    O telespectador precisa compreender novamente qual é a proposta da emissora. Essa resposta não será encontrada apenas na nostalgia. Será construída por meio de novos programas, talentos, formatos e narrativas capazes de dialogar com o Brasil de 2026 e do futuro.

    Ainda existe espaço para um novo ciclo

    Seria precipitado afirmar que o SBT perdeu definitivamente sua relevância. A marca continua entre as mais reconhecidas da televisão brasileira. Seu acervo é valioso.

    Possui tradição no entretenimento familiar, no jornalismo popular, nos programas de auditório e na dramaturgia voltada ao grande público. Além disso, conserva uma relação emocional rara com diferentes gerações de brasileiros.

    Poucas emissoras partem desse patrimônio. Mas patrimônio precisa ser transformado em projeto.

    O futuro do SBT depende menos de recuperar fórmulas antigas e mais de descobrir quais serão os novos sucessos que, daqui a vinte anos, despertarão a mesma nostalgia que hoje cerca programas como Show do Milhão, Bom Dia & Cia ou Casa dos Artistas.

    Um legado que merece continuar

    Os 45 anos do SBT representam uma oportunidade de reflexão. Celebrar a trajetória construída por Silvio Santos é reconhecer uma das contribuições mais importantes para a história da televisão brasileira. Seu espírito empreendedor, a capacidade de dialogar com diferentes públicos e a coragem para inovar ajudaram a moldar o entretenimento nacional.

    Mas a maior homenagem que a emissora pode prestar ao seu fundador não é viver eternamente das lembranças de uma era dourada. É construir uma nova. A televisão brasileira ainda precisa de um SBT forte, criativo e competitivo. Não apenas por tradição, mas porque diversidade de ideias, estilos e modelos de programação fortalece todo o mercado.

    Os próximos 45 anos não serão escritos pelas reprises que emocionam hoje, e sim pelas decisões tomadas agora. O passado garante respeito. O presente exige coragem. E o futuro dependerá da capacidade de transformar um legado histórico em uma emissora novamente indispensável para as novas gerações de espectadores.

    O texto SBT completa 45 anos: entre a força da nostalgia e o desafio de reinventar o futuro foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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