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    postado em 08/08/2026 12:51

    Poucos programas conseguem permanecer mais de uma década no ar sem precisar rever conceitos ou adaptar sua linguagem. O É de Casa, que completa 11 anos neste sábado, 8 de agosto de 2026, é um exemplo bastante claro desse processo. A atração da Globo nasceu ambiciosa, passou por períodos de indefinição, enfrentou críticas e inúmeras mudanças de elenco e, aos poucos, encontrou uma identidade capaz de justificar sua longevidade.

    Estreando em 8 de agosto de 2015, o programa surgiu com a proposta de transformar as manhãs de sábado da Globo em uma grande revista eletrônica voltada para toda a família. Jornalismo, entretenimento, culinária, decoração, saúde, comportamento, moda e prestação de serviço deveriam conviver dentro de uma mesma casa.

    Era também uma mudança importante na estratégia da emissora. O É de Casa ocupou uma faixa que, durante anos, teve forte associação com programação infantil e conteúdos educativos. Em vez de desenhos e atrações segmentadas, a Globo apostava definitivamente em um programa adulto, ao vivo e comercialmente versátil para preencher boa parte da manhã de sábado.

    Onze anos depois, talvez a maior vitória do É de Casa seja justamente esta: sobreviver tempo suficiente para deixar de parecer uma experiência da grade e se transformar em parte dela.

    Uma ideia interessante que demorou a encontrar sua forma

    A concepção original tinha um diferencial curioso. A Globo construiu nos Estúdios Globo uma casa especialmente para a atração e tentou reproduzir na televisão situações presentes na rotina doméstica do brasileiro. A ideia era que os apresentadores circulassem pelos ambientes e conversassem com o telespectador de maneira informal, diminuindo a distância tradicional entre quem estava diante das câmeras e quem assistia em casa.

    Para isso, a emissora reuniu um elenco impressionante: Ana Furtado, André Marques, Cissa Guimarães, Patrícia Poeta, Tiago Leifert e Zeca Camargo formaram o primeiro time de apresentadores. Eles se revezavam no comando e carregavam experiências bastante diferentes no jornalismo e no entretenimento.

    No papel, era quase um supergrupo da televisão brasileira. Na prática, porém, justamente essa abundância de apresentadores revelou um dos primeiros problemas do formato.

    Havia muitos talentos disputando espaço dentro de uma atração que ainda tentava descobrir o que queria ser. O excesso de rostos, assuntos e mudanças de tom podia transmitir uma sensação de fragmentação. O programa queria falar sobre tudo e, em determinados momentos, parecia não conseguir estabelecer claramente aquilo que o diferenciava de outras revistas eletrônicas da própria televisão.

    A informalidade também nem sempre parecia espontânea. A proposta de reproduzir uma casa brasileira era interessante visualmente, mas havia momentos em que o esforço para transformar colegas de trabalho em uma espécie de grande família televisiva parecia mais construído do que natural. Ainda assim, havia mérito na tentativa.

    Desde o começo, o É de Casa percebeu algo importante sobre a televisão das manhãs: o público desse horário não necessariamente deseja acompanhar uma atração com começo, meio e fim. Muitas vezes, a TV está ligada enquanto o espectador prepara o almoço, limpa a casa, toma café, conversa com a família ou realiza outras atividades. O programa precisava funcionar também como companhia. E foi justamente essa característica que se tornou uma de suas maiores forças.

    Uma casa em constante mudança

    Se existe uma palavra capaz de resumir a trajetória do É de Casa, ela provavelmente é adaptação. O elenco original foi sendo desmontado gradualmente. Tiago Leifert deixou o programa em 2016. Em 2020, Zeca Camargo e André Marques também saíram da atração, enquanto Manoel Soares passou a integrar a equipe. Cissa Guimarães deixou o matinal em 2021.

    As mudanças não se limitaram aos apresentadores. Diretores também passaram pelo projeto, quadros foram criados e abandonados, o espaço dedicado ao jornalismo aumentou ou diminuiu dependendo da fase, e a duração da atração foi ampliada. O É de Casa foi deixando de ser apenas um programa sobre assuntos domésticos para assumir cada vez mais a função de grande revista eletrônica dos sábados da Globo.

    Essa transformação foi fundamental para sua sobrevivência. A proposta inicial de uma casa na televisão era simpática, mas limitada para sustentar durante anos uma atração de longa duração. Ao incorporar notícias, entrevistas, comportamento, música, celebridades, prestação de serviço e acontecimentos em tempo real, o programa passou a ter liberdade editorial muito maior.

    Hoje, a própria Globo define a atração como um programa ao vivo que reúne serviço, jornalismo e entretenimento. Ou seja: a casa permaneceu no nome e no conceito visual, mas o conteúdo extrapolou suas paredes.

    A grande reformulação de 2022

    Talvez nenhuma transformação tenha sido tão importante quanto a promovida em julho de 2022. Dentro do projeto chamado pela Globo de Super Manhãs, a emissora reorganizou seus programas matinais e entregou o É de Casa a uma nova formação: Maria Beltrão, Rita Batista, Thiago Oliveira e Talitha Morete.

    Foi praticamente um recomeço. E a contratação de Maria Beltrão mostrou-se especialmente importante para essa nova fase. Depois de uma longa trajetória na GloboNews, incluindo 14 anos à frente do Estúdio i, a jornalista migrou para a televisão aberta e encontrou no entretenimento uma oportunidade de explorar características que o jornalismo tradicional permitia apenas parcialmente.

    A crítica especializada percebeu rapidamente essa qualidade. Em análise publicada pelo Splash/UOL pouco depois da estreia, Lívia Venaglia destacou justamente a capacidade de Beltrão de transitar entre assuntos completamente diferentes uma habilidade particularmente valiosa em um programa que pode passar de uma receita culinária para uma notícia urgente em questão de minutos.

    Essa versatilidade ajudou o É de Casa a resolver um problema antigo: encontrar alguém capaz de funcionar como uma espécie de eixo do programa sem necessariamente transformar os demais apresentadores em coadjuvantes.

    Rita Batista acrescentou repertório cultural e uma presença segura; Thiago Oliveira trouxe espontaneidade, esporte e proximidade popular; e Talitha Morete funcionou como elo entre diferentes fases da atração.

    A repercussão inicial nas redes também registrou comentários positivos sobre a energia e a descontração do novo quarteto.

    O problema de querer falar sobre tudo

    A longevidade, entretanto, não significa ausência de problemas. O principal defeito do É de Casa continua sendo consequência direta de sua maior qualidade: sua amplitude.

    Quando um programa precisa ocupar várias horas de uma manhã de sábado e abordar jornalismo, culinária, música, comportamento, celebridades, decoração, saúde, histórias humanas e prestação de serviço, a irregularidade é praticamente inevitável.

    Existem sábados em que a combinação funciona muito bem. Em outros, a atração parece apenas preencher tempo.

    Algumas pautas excessivamente triviais, conversas alongadas e quadros que poderiam ser resolvidos em poucos minutos reforçam uma percepção recorrente entre parte do público de que o programa nem sempre possui conteúdo suficiente para justificar sua duração.

    Discussões espontâneas em redes sociais mostram justamente essa divisão. Há espectadores que reconhecem a utilidade das dicas e a qualidade de profissionais como Maria Beltrão, enquanto outros criticam a seleção de pautas, o excesso de apresentadores e a sensação de superficialidade.

    É importante não transformar comentários de redes sociais em pesquisa de opinião, mas eles ajudam a identificar uma crítica recorrente: o É de Casa funciona melhor quando presta serviço ou reage aos acontecimentos do que quando tenta artificialmente produzir entretenimento para preencher espaço. Esse talvez seja o maior desafio editorial da atração.

    Um programa que aprendeu a ser companhia

    Ao mesmo tempo, seria injusto avaliar o É de Casa usando os mesmos critérios de um programa de auditório tradicional. Sua função na grade é diferente.

    O programa não depende de uma grande atração semanal, de competições ou de entrevistas exclusivas para funcionar. Ele trabalha sobretudo com fluxo. O espectador pode ligar a televisão às 8h, sair para resolver alguma coisa e retornar às 10h30 sem precisar entender aquilo que aconteceu anteriormente.

    É televisão de companhia. Essa característica ajuda a explicar por que um formato aparentemente simples atravessou tantas mudanças e permaneceu no ar.

    Há ainda um aspecto comercial relevante. A própria Globo apresenta atualmente o É de Casa ao mercado publicitário como um espaço de conexão entre marcas e o cotidiano do público, destacando temas como gastronomia, bem-estar, atualidades e cuidados com a casa.

    Poucos formatos oferecem tantas possibilidades naturais de inserção comercial. Uma receita pode receber produtos alimentícios. Um quadro de decoração conversa com varejistas. Saúde, beleza, viagens, finanças domésticas e tecnologia permitem outras inúmeras categorias de anunciantes.

    A própria amplitude editorial que às vezes prejudica artisticamente o programa ajuda a fortalecê-lo comercialmente.

    A consolidação veio justamente das mudanças

    O curioso é que o É de Casa encontrou sua identidade justamente quando deixou de tentar preservar rigidamente sua identidade original. O programa de 2026 é diferente daquele que estreou em 2015. E isso é positivo.

    A televisão mudou profundamente nesses 11 anos. O streaming avançou, YouTube e TikTok transformaram hábitos de consumo, receitas e tutoriais passaram a estar disponíveis instantaneamente no celular e as redes sociais ocuparam boa parte do território que pertencia às revistas eletrônicas.

    Nesse cenário, simplesmente ensinar uma receita ou mostrar como decorar uma sala deixou de ser suficiente. O diferencial da televisão aberta passou a ser outro: ao vivo, presença, identificação e companhia. É justamente onde o É de Casa consegue encontrar sua relevância.

    Quando uma notícia importante acontece em pleno sábado pela manhã, a estrutura jornalística da Globo permite interromper a leveza e informar. Quando o noticiário permite, o programa retorna para a música, a cozinha, as entrevistas e o entretenimento.

    Essa elasticidade editorial é uma das razões pelas quais o formato envelheceu melhor do que poderia parecer em seus primeiros anos.

    Aos 11 anos, o É de Casa finalmente parece realmente de casa

    Talvez o É de Casa nunca tenha se tornado um fenômeno cultural da televisão brasileira. Não produziu, até aqui, a mesma quantidade de momentos históricos de outros programas longevos da Globo e dificilmente será lembrado como uma atração revolucionária.

    Mas longevidade televisiva não se constrói apenas com grandes fenômenos. Constrói-se também com hábito. Durante 11 anos, enquanto apresentadores chegaram e partiram, cenários mudaram, a programação da Globo foi reorganizada e a própria maneira de consumir televisão se transformou, o É de Casa permaneceu nas manhãs de sábado.

    Seu maior mérito foi aprender com seus próprios erros. A formação inicial reunia grandes nomes, mas parecia numerosa demais. O conceito original era criativo, mas excessivamente preso ao universo doméstico. Algumas fases sofreram com falta de identidade. Outras pareceram funcionar mais como um espaço disponível na grade do que como um programa indispensável.

    A reformulação iniciada em 2022 deu maior personalidade ao formato e encontrou em Maria Beltrão uma figura especialmente adequada à imprevisibilidade de cinco horas de televisão ao vivo. A combinação entre jornalismo, serviço e entretenimento passou a parecer menos uma soma aleatória de conteúdos e mais a linguagem natural da atração.

    Isso não significa que o programa esteja acima de críticas. O excesso de duração, pautas ocasionalmente pouco relevantes e momentos em que a informalidade parece forçada continuam sendo pontos que merecem atenção.

    Mas existe algo que 11 anos de televisão comprovam: o É de Casa deixou de ser simplesmente uma aposta da Globo para ocupar o sábado de manhã e se transformou em um hábito da programação da emissora. E talvez esteja justamente aí sua maior conquista.

    O programa criado para simular uma casa demorou alguns anos para descobrir quem eram seus verdadeiros moradores. Depois de tantas entradas, saídas e reformas, encontrou uma formação e uma linguagem capazes de sustentar o formato.

    Aos 11 anos, o É de Casa pode não ser o programa mais celebrado da Globo. Mas conquistou algo igualmente difícil na televisão contemporânea: tornou-se familiar.

    O texto É de Casa completa 11 anos entre mudanças, críticas e a consolidação das manhãs de sábado da Globo foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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