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    postado em 09/08/2026 10:47

    O cinema brasileiro não costuma ter muitas oportunidades de brincar em grande escala com ficção científica, ação e distopia. É justamente por isso que Corrida dos Bichos, novo filme Original Prime produzido pela O2 Filmes, merece atenção antes mesmo de qualquer julgamento sobre seus acertos e erros. A produção dirigida por Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento tenta algo pouco frequente em nosso audiovisual: construir um blockbuster genuinamente brasileiro sem simplesmente reproduzir a estética de Hollywood.

    A tentativa é, por si só, relevante. E durante boa parte de suas pouco mais de duas horas, o filme demonstra que o cinema nacional tem capacidade técnica para isso.

    Corrida dos Bichos estreou no Prime Video em 7 de agosto, depois de ter realizado sua première mundial no festival SXSW, nos Estados Unidos. Segundo a própria Amazon, foi o primeiro título latino-americano do Prime Video a estrear no evento.

    A ideia central é excelente. Em um Rio de Janeiro de um futuro próximo, uma catástrofe ambiental transformou completamente a cidade. Nesse cenário marcado pela desigualdade, surge uma evolução macabra do tradicional jogo do bicho: milionários, chamados de Jogadores, apostam em pessoas das classes populares os chamados Bichos que precisam participar de uma corrida brutal em busca de um prêmio milionário.

    Mano, interpretado por Matheus Abreu, pertence justamente a um grupo de resistência ao sistema. Quando sua irmã Dalva, vivida por Thainá Duarte, acaba envolvida no jogo, ele é obrigado a participar da competição que passou a vida combatendo.

    É uma premissa simples, comercial e, ao mesmo tempo, carregada de possibilidades políticas.

    Uma distopia que continua sendo muito brasileira

    O maior acerto de Corrida dos Bichos é construção desse universo. Em vez de imaginar o futuro brasileiro como uma versão tropical de cidades americanas ou asiáticas, o filme procura desenvolver sua própria identidade. O Rio continua reconhecível, mas foi profundamente modificado pelas consequências ambientais e sociais.

    A abertura, inclusive, utiliza uma das imagens mais famosas da cidade: o Pão de Açúcar permanece lá, mas o mar deu lugar a quilômetros de areia. É uma imagem eficiente porque sintetiza a proposta inteira do filme.

    O futuro chegou, mas os problemas continuam sendo essencialmente os mesmos. Desigualdade social, exploração econômica, violência transformada em entretenimento, poder político, apostas e a distância entre quem participa do jogo e quem lucra observando tudo confortavelmente.

    A utilização do jogo do bicho como ponto de partida é particularmente inteligente porque transforma um elemento profundamente associado à cultura popular brasileira em matéria-prima para uma ficção científica.

    E o filme ganha relevância adicional quando essa lógica é observada no Brasil contemporâneo, marcado pela expansão das apostas esportivas e das chamadas bets.

    Não por acaso, a própria discussão em torno da produção tem relacionado sua distopia ao presente. A crítica da Folha de S.Paulo, por exemplo, definiu o longa como uma alegoria ligada às bets, enquanto integrantes do elenco têm ressaltado que esse futuro apresentado na tela pode estar muito mais próximo da realidade atual do que inicialmente parece.

    É quando Corrida dos Bichos funciona melhor: quando não parece querer prever o Brasil do futuro, mas exagerar características do Brasil que já existe.

    Tecnicamente, o filme impressiona

    Visualmente, existe muito para elogiar. As sequências de corrida, perseguição e combate possuem energia. Cenografia, fotografia, efeitos visuais e desenho de produção ajudam a criar uma identidade convincente para esse Rio transformado.

    Existe também um aspecto físico interessante na ação. Parkour, corrida e luta corporal ajudam a diferenciar o espetáculo das tradicionais sequências de tiros e explosões dos blockbusters convencionais.

    Nesse sentido, a experiência acumulada de Fernando Meirelles faz diferença. Há dinamismo na maneira como a câmera acompanha os personagens e uma preocupação permanente em transformar a cidade em parte da narrativa.

    A crítica internacional após a passagem pelo SXSW também identificou justamente essa força. O crítico Robert Daniels, escrevendo para o site de Roger Ebert, destacou a eficiência das grandes sequências de ação, embora tenha feito ressalvas importantes ao restante da narrativa.

    É difícil assistir ao filme e não reconhecer sua ambição.

    Corrida dos Bichos quer ser grande.

    E o cinema brasileiro precisa de produções dispostas a pensar grande.

    O problema aparece quando a corrida diminui a velocidade

    Existe, entretanto, uma diferença importante entre construir um universo interessante e desenvolver uma história igualmente interessante dentro dele. É justamente aí que o filme encontra sua maior fragilidade.

    A quantidade de conceitos apresentados é enorme. Meio ambiente, desigualdade, exploração dos pobres, apostas, manipulação, resistência política, espetacularização da violência e concentração de poder disputam espaço dentro da narrativa. Nem todos conseguem ser devidamente desenvolvidos.

    A crítica publicada pelo Cineinsite resumiu bem essa contradição ao considerar que o longa possui boas ideias, mas sofre com a superficialidade. O Observatório do Cinema chegou a diagnóstico semelhante: a distopia funciona melhor quando está em movimento do que quando precisa sustentar dramaticamente o próprio roteiro.

    E esse é o principal problema de Corrida dos Bichos. O universo é frequentemente mais interessante do que os personagens que vivem dentro dele. Mano possui uma motivação clara e fácil de compreender salvar a irmã , mas nem sempre recebe profundidade emocional suficiente para carregar sozinho uma produção tão grandiosa.

    O mesmo acontece com parte do elenco de apoio. E é um elenco impressionante. Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge, Silvero Pereira, Leandro Firmino, João Guilherme e Anitta, entre outros filmes, formam um conjunto que imediatamente desperta curiosidade.

    Só que reunir muitos rostos conhecidos também cria expectativa. Alguns personagens parecem existir mais como peças daquele universo do que como indivíduos realmente complexos. O resultado é uma sensação curiosa: queremos saber mais sobre aquela sociedade, sobre suas regras e sobre aquelas pessoas, mas o filme frequentemente precisa correr para chegar à próxima etapa da competição.

    A crítica social funciona, mas poderia ir além

    Também existe certa obviedade na metáfora. Ricos transformando pobres em peças de um espetáculo mortal é uma ideia poderosa, mas está longe de ser inédita na ficção contemporânea. De Jogos Vorazes a Round 6, passando por inúmeras distopias sobre competições violentas, o princípio narrativo já foi explorado diversas vezes.

    A diferença de Corrida dos Bichos está justamente na brasilidade. O jogo do bicho, o Rio de Janeiro, nossa desigualdade e nossas contradições culturais oferecem ao filme personalidade própria. O problema é que ele nem sempre investiga essas questões tão profundamente quanto poderia.

    Em alguns momentos, a crítica social funciona mais como cenário para a aventura do que como consequência dramática dela. Isso não elimina seu mérito. Mas impede que o longa alcance completamente a potência sugerida por sua própria premissa.

    Um elenco conhecido em um filme que precisa apresentar um novo protagonista

    Outro acerto está na escolha de Matheus Abreu para o centro da história. Cercado por nomes extremamente conhecidos do público, o ator precisa sustentar Mano sem desaparecer diante das estrelas ao seu redor. E consegue. Sua interpretação ajuda a criar humanidade dentro de uma produção constantemente interessada em movimento e espetáculo.

    Rodrigo Santoro, por sua vez, possui presença suficiente para compreender o tipo de universo exagerado em que está inserido, enquanto Isis Valverde e Bruno Gagliasso também ajudam a dar peso comercial ao projeto.

    Anitta inevitavelmente desperta curiosidade por sua participação, mas o verdadeiro protagonista aqui não deveria ser nenhum nome individual. É o próprio universo criado pelo filme.

    A reação do público ainda precisa amadurecer

    Como Corrida dos Bichos chegou ao Prime Video apenas em 7 de agosto, seria precipitado falar em uma opinião consolidada dos espectadores.

    As primeiras avaliações demonstram uma recepção dividida. No IMDb, o longa aparecia no dia seguinte à estreia com nota 4,2 de 10, baseada em somente 219 avaliações quantidade insuficiente para qualquer conclusão definitiva.

    Em contrapartida, já aparecem avaliações bastante entusiasmadas no Letterboxd, incluindo espectadores destacando o ritmo e a capacidade do filme de proporcionar uma experiência de ação brasileira pouco habitual.

    Essa divisão inicial é compreensível. Quem entrar esperando principalmente um filme de ação encontrará sequências bastante eficientes. Quem esperar uma ficção científica política mais aprofundada provavelmente perceberá as limitações do roteiro.

    Corrida dos Bichos merece existir inclusive com suas imperfeições

    No balanço final, Corrida dos Bichos é mais interessante pelo que tenta fazer do que por tudo aquilo que efetivamente consegue realizar. E isso não precisa ser interpretado apenas como uma crítica.

    Existe algo importante em ver uma produção brasileira assumir o risco de criar uma distopia de grandes proporções, misturando ficção científica, ação e elementos genuinamente nacionais. O filme não precisa esconder sua origem para parecer internacional. Pelo contrário. Quanto mais brasileiro fica, melhor funciona.

    Seu problema está justamente em possuir ideias demais e tempo dramático de menos para explorá-las. A construção visual impressiona mais do que a construção psicológica dos personagens; a ação é mais consistente do que o drama; e a metáfora política é mais interessante em sua concepção do que em seu aprofundamento.

    Ainda assim, reduzir Corrida dos Bichos aos seus problemas seria ignorar sua importância como experiência dentro da produção audiovisual brasileira. Nem todo filme ambicioso precisa acertar completamente para justificar sua existência. Às vezes, é justamente o filme imperfeito que demonstra caminhos possíveis.

    Corrida dos Bichos corre rápido demais para aprofundar todas as ideias que apresenta, mas abre uma pista que o cinema comercial brasileiro deveria explorar mais vezes: produzir entretenimento de grande escala sem abandonar nossa identidade.

    O texto Corrida dos Bichos impressiona pela ambição visual, mas roteiro não acompanha o tamanho de suas ideias foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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