Estrelas da Casa encontra em Anitta e Ana Clara o que faltava ao reality, mas novo formato ainda precisa se explicar - (crédito: Obeservatório da TV)
O Estrelas da Casa voltou à programação da Globo nesta terça-feira, 25 de agosto, praticamente como um novo programa. Depois de duas temporadas que não conseguiram transformar o reality musical em um fenômeno de audiência ou repercussão, a emissora decidiu mexer profundamente no formato. A principal mudança já está no nome: agora são Estrelas, no plural, porque a competição deixou de procurar apenas um vencedor para tentar formar um grupo musical.
A estreia mostrou que a reformulação foi necessária e, principalmente, que existe um programa potencialmente mais interessante escondido dentro do formato. Ao mesmo tempo, evidenciou um problema que acompanha o Estrelas da Casa desde 2024: a atração continua procurando uma identidade suficientemente forte para justificar sua permanência na grade.
Nesta terceira temporada, os participantes são divididos entre Pop e Pagode, sob a mentoria de Junior e Belo, respectivamente. Anitta ocupa a função de conselheira, enquanto Ana Clara permanece no comando. A competição inclui apresentações em grupo, desafios profissionais e atividades relacionadas ao funcionamento real do mercado fonográfico.
A proposta é melhor do que a das temporadas anteriores porque estabelece um objetivo concreto. Em vez de simplesmente colocar cantores em uma casa e tentar adaptar mecanismos típicos do Big Brother Brasil a um reality musical, o programa agora tem uma missão facilmente vendável: formar uma banda.
Na teoria, é justamente a identidade que faltava ao projeto.
Anitta foi o grande acerto da estreia
Se existe uma conclusão praticamente incontornável após o primeiro programa, ela atende pelo nome de Anitta.
A cantora compreendeu imediatamente o papel que deveria desempenhar. Em vez de assumir a postura excessivamente cuidadosa normalmente vista em jurados e mentores de realities musicais, Anitta falou como alguém que conhece profundamente o funcionamento da indústria e, sobretudo, como uma personalidade de televisão.
Comentou figurino, repertório, postura e produção das apresentações. Fez críticas, ironizou situações e não tentou transformar cada avaliação em um discurso motivacional. Foi exatamente disso que o programa precisava.
A participação repercutiu imediatamente. A hashtag #EstrelasDaCasa chegou ao primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do X, e boa parte das manifestações destacadas pela própria Globo girou em torno das opiniões e reações da cantora.
A crítica especializada também identificou o mesmo fenômeno. Ricky Hiraoka, no Splash/UOL, avaliou que Anitta trouxe frescor à atração com sua espontaneidade e seus comentários. Já o NaTelinha destacou justamente a combinação entre a cantora e Ana Clara como principal elemento de entretenimento da estreia.
E aqui aparece uma qualidade importante: Anitta cria imprevisibilidade.
Reality show precisa da sensação de que alguma coisa pode acontecer fora do roteiro. A cantora produz isso naturalmente. Quando começa uma avaliação, o telespectador não sabe exatamente o que ela vai dizer e essa expectativa é televisão.
Ana Clara finalmente parece completamente dona do programa
Outro ponto positivo foi Ana Clara. Depois de três temporadas, a apresentadora parece cada vez menos preocupada em apresentar um programa e mais confortável simplesmente comandando a atração. A diferença é significativa.
Ana Clara mostrou agilidade no improviso, respondeu rapidamente às provocações de Anitta e conduziu o ao vivo sem perder o controle da narrativa. O NaTelinha também ressaltou seu timing de improvisação, enquanto a Veja destacou sua segurança no comando da atração.
A química entre as duas acabou criando algo que talvez a Globo nem tivesse previsto como elemento central do formato. Anitta provoca. Ana Clara devolve. Quando isso acontece naturalmente, o programa ganha personalidade.
O palco e as apresentações também evoluíram
Visualmente, a nova temporada parece maior. A estreia apostou fortemente nos números musicais, com palco amplo, telões, coreografias e repertório popular. A Veja destacou justamente a energia das apresentações e o investimento visual como qualidades desta nova versão. Também foi acertada a decisão de colocar a música novamente no centro da atração.
Parece óbvio dizer isso sobre um reality musical, mas nem sempre foi assim nas temporadas anteriores. O primeiro ano tentou importar excessivamente elementos de convivência do BBB; o segundo corrigiu parte desse problema ao valorizar mais o desenvolvimento artístico. Agora, finalmente, existe a impressão de que a música determina a narrativa do programa e não apenas serve como desculpa para o confinamento. Esse talvez seja o avanço conceitual mais importante da terceira temporada.
Mas faltou explicar o programa
O principal problema da estreia, entretanto, também foi bastante evidente. A Globo reformulou tanto o Estrelas da Casa que esqueceu de explicar adequadamente ao telespectador como esse novo Estrelas da Casa funciona. É uma falha importante.
O público entendeu o que estava acontecendo naquela noite: candidatos cantariam, dois seriam escolhidos pela votação popular e Junior completaria o grupo Pop. Tori e Enzo Cespom foram os dois classificados pelo público, com 20,49% e 18,23% dos votos, respectivamente.
Mas entender a lógica daquela estreia não significa compreender toda a temporada.
Quais serão exatamente as etapas? Como os grupos serão reorganizados? Quanto pesa a votação popular? Qual será o poder dos mentores? Como ocorrerão as eliminações? Em que momento os candidatos individuais se transformarão efetivamente em uma banda?
A Globo divulgou previamente essas regras: haverá apresentações em diferentes formações, votação individual durante parte da temporada, decisões dos mentores e, posteriormente, escolha das configurações dos grupos até que Pop e Pagode se enfrentem na final.
O problema é que o telespectador não deveria precisar pesquisar no Gshow para compreender completamente um programa de televisão.
Essa crítica também apareceu no Splash/UOL, que apontou justamente a dificuldade da estreia em explicar de maneira didática a nova dinâmica.
Muitos candidatos, pouco tempo para conhecê-los
Existe ainda um segundo problema estrutural: o excesso de gente. A primeira noite precisou apresentar muitos rostos, colocar candidatos para cantar, ouvir avaliações, mostrar Junior, Anitta, Ana Clara, convidados e ainda definir quem entraria definitivamente no programa.
Consequência: vimos cantores, mas conhecemos pouco as pessoas. A Veja apontou um problema bastante específico: as seletivas foram resumidas em um VT muito curto, justamente quando poderiam servir para humanizar os candidatos e criar identificação imediata com o público.
Esse detalhe pode parecer pequeno, mas não é. Talent show não vive apenas de grandes vozes. Vive de torcida.
Para votar em alguém durante semanas, o telespectador precisa criar algum vínculo emocional. Saber quem canta melhor é importante; saber por que aquela pessoa precisa estar ali costuma ser ainda mais eficiente para construir torcida. E a estreia correu rápido demais nessa apresentação.
O maior risco: Anitta ser maior que o próprio reality
Curiosamente, o maior acerto da estreia também revela um dos maiores riscos da temporada. Anitta foi tão divertida que praticamente monopolizou a repercussão. Quando terminou o programa, era muito mais fácil lembrar de suas caras, críticas e comentários do que identificar boa parte dos candidatos.
Isso funciona perfeitamente em uma estreia. A presença de uma estrela internacional ajuda a gerar curiosidade, cortes para redes sociais e repercussão espontânea. Mas não pode se transformar na estrutura permanente do programa. Porque o Estrelas da Casa precisa criar estrelas, e não apenas depender das que já possui.
Junior, Belo, Anitta e Ana Clara devem funcionar como catalisadores. O objetivo final precisa ser fazer o público chegar ao fim da temporada discutindo Tori, Enzo, Cinara, Laura Schadeck, Bruno Gadiol e os demais participantes e não apenas esperando pela próxima frase de Anitta. Esse será talvez o principal teste editorial das próximas semanas.
Uma estreia melhor do que o histórico do programa
Apesar dos problemas, a terceira temporada começou melhor do que o retrospecto recente do Estrelas da Casa sugeria. Existe mais energia, mais música, melhor direção visual e, sobretudo, mais personalidade.
A decisão de abandonar parcialmente a tentativa de ser um BBB de cantores foi correta. A formação de bandas oferece um objetivo concreto e permite explorar elementos interessantes: liderança, harmonia vocal, presença de palco, identidade visual, repertório, composição, marketing e capacidade de trabalhar coletivamente.
A dinâmica Vida de Artista, por exemplo, promete retirar os participantes do Centro de Treinamento para enfrentar experiências ligadas à profissão, enquanto oficinas, workshops, apresentações ao vivo e estratégias de lançamento devem ampliar a abordagem sobre a carreira musical. Isso pode diferenciar o programa de outros realities musicais.
Estrelas da Casa finalmente encontrou o caminho?
Ainda não. Mas talvez tenha encontrado um caminho. E isso já representa progresso. A estreia mostrou um programa mais disposto a divertir e menos preocupado em reproduzir fórmulas de realities anteriores. Ana Clara está segura, Junior funciona como mentor, a produção musical ganhou importância e Anitta adicionou exatamente a dose de espontaneidade que faltava.
Por outro lado, a nova temporada ainda precisa resolver problemas fundamentais: simplificar a narrativa, explicar melhor suas regras, apresentar seus candidatos como personagens e impedir que os famosos do elenco permanente sejam maiores do que os artistas que o programa pretende revelar.
A repercussão inicial nas redes é um sinal positivo chegar ao topo dos assuntos comentados do X demonstra capacidade de gerar conversa , mas uma noite de curiosidade não significa necessariamente consolidação.
Depois de duas temporadas tentando convencer o público de que Estrelas da Casa tinha motivos para existir, a Globo parece ter entendido que simplesmente ajustar algumas dinâmicas não seria suficiente. Era preciso praticamente reconstruir o programa. A terceira temporada começou justamente fazendo isso.
A nova versão ainda não é perfeita, mas pela primeira vez o Estrelas da Casa parece menos preocupado em descobrir qual reality gostaria de ser e mais próximo de encontrar uma identidade própria. Agora falta cumprir a parte mais difícil da promessa: fazer com que, quando a temporada terminar, as verdadeiras estrelas sejam aquelas que entraram na casa desconhecidas do grande público e não apenas Anitta, Junior, Belo e Ana Clara.
O texto Estrelas da Casa encontra em Anitta e Ana Clara o que faltava ao reality, mas novo formato ainda precisa se explicar foi publicado primeiro no Observatório da TV.
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