Cássio Gabus Mendes se despede de A Nobreza do Amor com atuação marcada pela elegância e pela contenção - (crédito: Obeservatório da TV)
A morte de Casemiro Bonafé em A Nobreza do Amor representará mais do que a saída de um personagem importante da história. Também colocará ponto final em uma atuação que, sem necessariamente ocupar o centro dos grandes acontecimentos do folhetim, funcionou como um dos pilares de sustentação dramática da novela. Aos 65 anos, Cássio Gabus Mendes reafirmou no papel uma característica que acompanha seus melhores trabalhos: a capacidade de fazer muito sem precisar demonstrar que está fazendo.
Casemiro poderia facilmente ter se transformado em mais uma variação do tradicional coronel das novelas de época. Afinal, o personagem é dono de uma lavoura e do Santa Fé, o engenho de cana-de-açúcar mais importante de Barro Preto. A própria Globo apresentou o personagem como um homem influente, padrinho de Tonho (Ronald Sotto), manipulado pela esposa Graça (Fabiana Karla) e explorado pelo filho Mirinho (Nicolas Prattes).
O trabalho de Cássio, entretanto, caminhou em uma direção mais interessante. Em vez de apostar apenas na autoridade, na voz elevada ou nos gestos grandiosos normalmente associados a esse arquétipo, o ator construiu Casemiro a partir de suas contradições.
Um coronel muito diferente do estereótipo
Esse talvez tenha sido o principal mérito de sua interpretação. Casemiro tem poder econômico e influência social, mas está longe de ser apresentado como um homem que controla tudo ao seu redor. Dentro da própria família acontece justamente o contrário. Ele sofre com as manipulações de Graça, com a irresponsabilidade e posteriormente com a escalada moral de Mirinho e, ao mesmo tempo, tenta preservar determinados valores que considera fundamentais.
Cássio Gabus Mendes compreendeu muito bem essa ambiguidade. Seu Casemiro nunca precisou ser transformado artificialmente em mocinho para conquistar a simpatia do espectador. Há nele as marcas de um homem pertencente à elite rural brasileira dos anos 1920, mas também uma humanidade que gradualmente ultrapassa sua posição social.
É justamente nesse terreno intermediário que o ator trabalha melhor. Olhares de desaprovação, pausas antes das respostas, mudanças discretas na expressão e principalmente a maneira cansada com que Casemiro passou a reagir aos problemas familiares ajudaram a transmitir a sensação de um homem sendo lentamente consumido pelas consequências das escolhas daqueles que ama.
Não é uma interpretação construída para chamar atenção sobre si mesma. E isso é um elogio.
Cássio Gabus Mendes transforma contenção em força
Em uma novela que trabalha com registros bastante diferentes do melodrama ao romance, passando pela aventura e por conflitos políticos , Cássio frequentemente funcionou como uma espécie de elemento estabilizador. É uma característica adquirida também pela enorme experiência do ator.
Integrante de uma família profundamente ligada à história da televisão brasileira e dono de uma carreira que atravessa mais de quatro décadas, Cássio Gabus Mendes já interpretou protagonistas, vilões, homens românticos, personagens cômicos e figuras moralmente ambíguas.
Em A Nobreza do Amor, ele não parece interessado em disputar a cena. Ele a sustenta. Essa diferença é importante. Há atores que valorizam uma sequência aumentando sua própria presença. Cássio muitas vezes consegue valorizá-la oferecendo espaço ao parceiro. Isso aparece especialmente nas relações de Casemiro com Graça, Mirinho e Tonho.
Com Fabiana Karla, existe uma dinâmica matrimonial marcada pelo desequilíbrio e pela manipulação. Com Nicolas Prattes, o ator construiu progressivamente a frustração de um pai diante do homem em que seu filho se transformou. E com Ronald Sotto aparece uma relação de confiança e afeto que ajuda a explicar por que Tonho ocupa um espaço tão importante no engenho. Essas relações tornam Casemiro dramaticamente relevante mesmo quando ele não conduz diretamente a ação.
A relação com Mirinho produziu alguns dos melhores momentos do personagem
A reta final da participação de Cássio reforça justamente aquilo que sua interpretação vinha construindo. Mirinho ultrapassa definitivamente os limites ao mandar matar Tonho. Depois que o atentado fracassa e o crime chega ao conhecimento de Casemiro, o coronel decide expulsar o próprio afilhado do engenho e exige que o responsável seja punido. A força desse conflito não está apenas na descoberta do crime. Está no acúmulo.
Durante meses, o público acompanhou Casemiro tolerando comportamentos do filho, enfrentando problemas financeiros e tentando administrar uma família progressivamente mais desestruturada. Quando finalmente estabelece um limite, a reação ganha peso justamente porque Cássio nunca interpretou o personagem como alguém explosivo por natureza.
O confronto passa a representar o esgotamento de um pai. É uma escolha interpretativa inteligente porque preserva a coerência psicológica do personagem.
Casemiro conquistou importância sem precisar virar protagonista
Existe ainda outro aspecto interessante no trabalho. Casemiro não pertence ao núcleo protagonista central de A Nobreza do Amor, mas tornou-se uma presença reconhecível dentro da dramaturgia da novela. A repercussão em torno de sua saída ajuda a demonstrar o espaço que o personagem conquistou: desde que a morte foi revelada, diferentes veículos passaram a tratar sua despedida como um acontecimento importante para a reta decisiva do folhetim.
Não significa necessariamente que Casemiro tenha sido o personagem mais popular da novela. Seria exagerado afirmar isso sem dados objetivos que permitam essa comparação. Mas existe uma diferença entre popularidade e relevância dramática. Casemiro conquistou a segunda. E boa parte dessa relevância nasceu da segurança de Cássio Gabus Mendes.
O roteiro poderia ter aproveitado ainda mais o ator
Se existe uma ressalva ao arco de Casemiro, ela parece estar menos na atuação e mais no espaço dramático oferecido ao personagem.
Em determinados períodos da novela, o coronel poderia ter sido explorado com maior profundidade fora dos conflitos envolvendo Graça e Mirinho. Sua posição econômica, sua relação com Tonho e principalmente suas divergências políticas com Bartolomeu ofereciam possibilidades para uma presença ainda mais complexa dentro da representação de Barro Preto.
A própria apresentação oficial da Globo destacava que Casemiro apoiaria José (Bukassa Kabengele) no projeto de levar energia elétrica à cidade, entrando em choque com os interesses de Bartolomeu. Esse aspecto ajudava a mostrar um homem pertencente à estrutura tradicional de poder, mas capaz de apoiar determinadas transformações. Havia material para mais.
Ainda assim, Cássio conseguiu preencher muitos dos espaços deixados pelo texto através da interpretação. Quando um ator experiente consegue sugerir pensamentos e conflitos que o roteiro não verbaliza, o personagem cresce além das próprias falas.
Uma despedida coerente com o personagem
A saída de Cássio Gabus Mendes não aconteceu de maneira repentina por decisão posterior da produção. Nesta quinta-feira (3), durante participação no Encontro, o próprio ator revelou que sabia desde o início que Casemiro morreria. Segundo ele, a previsão inicial era que isso acontecesse por volta do capítulo 110, mas sua permanência acabou ampliada até o capítulo 144.
É uma informação particularmente interessante. A extensão da participação permitiu que Casemiro atravessasse uma parcela maior da novela e chegasse ao desfecho com relações e conflitos mais amadurecidos.
A morte acontecerá de causas naturais na casa de Diógenes (Danton Mello). Cássio já gravou a sequência, e sua última participação nos estúdios aconteceu em uma cena de missa reunindo diversos personagens. O coronel aparecerá bastante abatido antes de sua despedida definitiva. Também parece acertada a opção por não transformar sua morte em mais um acontecimento espetacular.
Casemiro não precisa ser assassinado, sofrer um acidente mirabolante ou protagonizar uma sequência artificialmente grandiosa para que sua saída tenha impacto. Depois de tantas turbulências familiares, o fim natural de um homem progressivamente cansado pode produzir uma emoção muito maior justamente pela simplicidade. E Cássio Gabus Mendes é o tipo de ator capaz de sustentar esse registro.
Cássio Gabus Mendes deixa uma atuação de veterano no melhor sentido
Há uma expressão frequentemente utilizada de maneira automática para atores experientes: veterano. No caso de Cássio Gabus Mendes, porém, ela ajuda a compreender aquilo que sua passagem por A Nobreza do Amor representa.
Não porque sua interpretação dependa do passado. Mas porque existe nela domínio técnico. Cássio conhece o tempo da televisão, entende o primeiro plano, sabe quando aumentar a intensidade e, sobretudo, quando diminuí-la. Em Casemiro, essa economia tornou-se uma das principais virtudes da atuação.
Talvez o personagem não seja lembrado futuramente como um dos papéis mais emblemáticos de sua extensa carreira. O próprio roteiro nunca lhe ofereceu essa dimensão. Mas isso não diminui a qualidade do trabalho. Pelo contrário.
Transformar um personagem de apoio em uma figura dotada de identidade, humanidade e importância emocional exige justamente aquilo que Cássio Gabus Mendes demonstrou durante toda a novela: presença sem exibicionismo. Quando Casemiro morrer, A Nobreza do Amor perderá uma figura importante de Barro Preto. E perderá também uma das atuações mais discretamente eficientes de seu elenco.
O texto Cássio Gabus Mendes se despede de A Nobreza do Amor com atuação marcada pela elegância e pela contenção foi publicado primeiro no Observatório da TV.
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