Gui Ferraz transforma Tiago Brandão em uma das boas surpresas de Quem Ama Cuida - (crédito: Obeservatório da TV)
Em uma novela das nove cercada por atores experientes e personagens de personalidade forte, conquistar espaço não é uma tarefa simples. Ainda mais quando o papel em questão não está no centro absoluto da história. Mesmo assim, Gui Ferraz vem conseguindo fazer de Tiago Brandão uma presença cada vez mais interessante em Quem Ama Cuida.
O desempenho do ator merece atenção justamente porque sua evolução acompanha a do personagem. Tiago começou a novela como um homem aparentemente fácil de compreender: elegante, disciplinado, ambicioso, extremamente ligado à mãe, Silvana (Belize Pombal), e determinado a conquistar dentro da joalheria Brandão o reconhecimento que acreditava merecer.
Gui poderia ter transformado essas características em uma interpretação previsível, fazendo de Tiago simplesmente o típico executivo ambicioso das novelas. Não foi o que aconteceu.
À medida que Quem Ama Cuida avançou, o ator começou a revelar pequenas fissuras nessa imagem de controle. E é justamente quando Tiago perde o controle que Gui Ferraz parece encontrar o melhor material para seu trabalho.
A perda da presidência da joalheria representou um ponto de virada importante. Ferido no orgulho, Tiago deixa aparecer ressentimento, raiva e desejo de vingança. O próprio ator classificou essa transformação como um divisor de águas e definiu Tiago como o personagem mais complexo de sua carreira, destacando principalmente sua ambiguidade. É uma definição bastante adequada para aquilo que começa a aparecer na tela.
Gui Ferraz funciona melhor quando Tiago deixa de ser perfeito
Um dos méritos da interpretação está em evitar uma divisão muito óbvia entre mocinho e vilão. Tiago pode ser carinhoso com Silvana e, pouco depois, demonstrar uma ambição quase agressiva. Pode parecer seguro no ambiente profissional e revelar enorme fragilidade quando o assunto é Bruna (Nanda Marques). Pode ser racional diante dos negócios e completamente impulsivo quando seus sentimentos são atingidos. Essa contradição beneficia Gui Ferraz.
Nas cenas mais contidas, o ator aposta em uma interpretação econômica, adequada à personalidade meticulosa do personagem. Tiago frequentemente parece estar calculando o ambiente antes de reagir. Mas quando a segurança do executivo começa a desmoronar, Ferraz permite que outra versão do personagem apareça.
Foi especialmente perceptível na sequência em que, depois de perder a presidência da Brandão Joias, Tiago bebe e procura Bruna. Ao pedir que ela abandone Pedro (Chay Suede) para ficar com ele, o personagem abandona a postura controlada que sustentou durante boa parte da novela.
Ali surge um Tiago vulnerável, inconveniente, apaixonado, frustrado e até patético. E isso é bom. Porque personagens excessivamente protegidos pela interpretação dificilmente ganham humanidade. Gui não parece preocupado em fazer Tiago ser permanentemente admirável. Permite que ele seja desagradável quando precisa ser e emocionalmente pequeno quando a situação exige.
O problema de Tiago nem sempre esteve em Gui Ferraz
Há, entretanto, uma diferença importante entre avaliar o ator e avaliar aquilo que a novela ofereceu ao personagem. Depois da passagem de seis anos na história, Quem Ama Cuida recebeu críticas pela sensação de que alguns núcleos permaneceram praticamente congelados. Tiago foi um dos exemplos mais evidentes.
Mesmo depois de tantos anos, continuava emocionalmente preso a Bruna, sem que sua vida afetiva parecesse ter avançado significativamente. Esse tipo de construção limita qualquer intérprete. Durante determinado período, Tiago parecia existir muito mais como peça da disputa pela joalheria e como pretendente de Bruna do que como personagem com uma trajetória verdadeiramente autônoma.
Por isso, parte da irregularidade percebida em sua presença na novela não pode ser atribuída ao trabalho de Gui Ferraz. Ao contrário: quando o roteiro finalmente oferece conflitos mais concretos a perda do poder, o ressentimento contra Ingrid (Agatha Moreira), os embates familiares e a possibilidade de viver uma relação com Bruna o ator responde bem. É como se o público estivesse começando a conhecer agora o Tiago que existia apenas em potencial nos primeiros meses da história.
A química com Belize Pombal é um dos acertos
Outro ponto favorável é a parceria de Gui Ferraz com Belize Pombal. A relação entre Tiago e Silvana nunca foi escrita simplesmente como a de uma mãe amorosa e seu filho. Existe dependência emocional, influência, ambição compartilhada e uma espécie de pacto entre os dois. Gui consegue transmitir essa ligação sem transformar Tiago em mero fantoche da mãe.
É justamente aí que existe uma possibilidade interessante para a reta seguinte da novela: até onde Tiago continuará aceitando a interferência de Silvana quando os desejos dela começarem a entrar em conflito com os seus? O próprio ator já sugeriu que o excesso de zelo da personagem pode complicar a vida pessoal do filho. Se o roteiro explorar essa ruptura, Gui poderá receber um material dramático ainda melhor.
Popularidade de Gui Ferraz também cresceu
Existe ainda um indicador que não deve ser ignorado: Quem Ama Cuida aumentou consideravelmente a visibilidade de Gui Ferraz. O ator contou que passou a receber muito mais abordagens e cantadas do público depois de entrar na novela. Publicações suas nas redes sociais também passaram a provocar grande repercussão e uma quantidade expressiva de elogios. Evidentemente, popularidade não é sinônimo de qualidade de interpretação. Mas existe algo significativo acontecendo: o público começou a identificar Gui Ferraz para além do personagem.
Em uma novela das nove, essa capacidade de criar reconhecimento é importante. Ainda mais para um ator que divide cenas e espaço narrativo com nomes como Antonio Fagundes, Isabel Teixeira, Alexandre Borges, Agatha Moreira, Leticia Colin, Chay Suede e Deborah Evelyn. Gui não desapareceu diante desse elenco. Ao contrário, ganhou terreno.
Um novo galã, mas com possibilidade de ir além disso
A Globo parece ter encontrado em Gui Ferraz um ator com características evidentes de galã, mas seria um desperdício limitar sua trajetória a esse lugar. Tiago funciona justamente porque existe algo menos confortável por trás da aparência impecável. Ambição, ressentimento, insegurança, dependência materna, vaidade e frustração amorosa tornam o personagem potencialmente mais interessante do que o simples homem bonito apaixonado pela mulher comprometida.
Gui Ferraz parece compreender isso. Sua interpretação ainda pode ganhar mais intensidade principalmente em cenas de confronto mais pesadas , mas há uma qualidade importante em seu trabalho: ele não tenta antecipar todas as emoções do personagem para o espectador. Existe certa contenção. E, para Tiago, ela funciona.
Gui Ferraz é uma das boas descobertas de Quem Ama Cuida
Ainda é cedo para colocar Tiago entre os grandes personagens de Quem Ama Cuida. O roteiro ainda precisa decidir até onde pretende levá-lo e, principalmente, romper definitivamente com a sensação de estagnação que acompanhou o personagem durante parte da novela. Mas é possível dizer que Gui Ferraz está aproveitando a oportunidade.
Quando recebe material dramático, responde. Quando contracena com atores mais experientes, sustenta a cena. Quando Tiago precisa abandonar a elegância e mostrar suas fragilidades, o ator não demonstra medo de desmontar a imagem de galã. O resultado é um personagem que hoje parece mais interessante do que no início da novela.
E talvez esse seja o maior elogio possível ao trabalho de um ator em uma obra aberta como uma novela: Gui Ferraz fez Tiago crescer diante do público e, ao mesmo tempo, cresceu junto com ele. Se Quem Ama Cuida continuar explorando as zonas menos nobres e mais contraditórias do personagem, o papel poderá representar mais do que a consolidação de Gui Ferraz no horário nobre. Pode ser o trabalho que abre caminho para que a Globo passe a enxergá-lo como um ator capaz de ocupar posições ainda maiores em sua dramaturgia.
O texto Gui Ferraz transforma Tiago Brandão em uma das boas surpresas de Quem Ama Cuida foi publicado primeiro no Observatório da TV.
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