A Fazenda 18 estreia entre nostalgia e desconfiança, mas Record encontra fórmula para incendiar o jogo - (crédito: Obeservatório da TV)
A Fazenda 18 abriu oficialmente suas porteiras na noite desta segunda-feira, 14 de setembro, cercada por uma contradição que acompanha o reality da Record há anos: quanto mais o público reclama previamente do elenco, maior parece ser a curiosidade para descobrir se aqueles nomes considerados pouco conhecidos serão capazes de entregar o caos que transformou o programa em um dos principais realities da televisão brasileira.
E a estreia deixou uma primeira impressão interessante. A Fazenda 18 não começou como uma temporada explosiva, mas começou melhor do que a escalação inicialmente desacreditada fazia imaginar.
A Record colocou 22 peões diretamente na sede e acrescentou quatro visitantes, que ganharam poder para interferir no jogo antes mesmo de serem efetivados como concorrentes. O vencedor levará R$ 2 milhões, enquanto outros R$ 500 mil serão distribuídos em prêmios ao longo da temporada. A emissora também reformulou ambientes da sede e recuperou referências visuais da primeira edição do programa, numa aposta declarada na memória afetiva do público.
Um elenco que parecia fraco e talvez esse seja justamente o seu trunfo
A escalação foi, inevitavelmente, o ponto mais questionado antes da estreia. Sérgio Hondjakoff, Jônatas Faro, Thaíde, Maíra Charken, Adryana Ribeiro, Jottapê, Lucas Bissoli, Tina Calamba, Renata Del Bianco e outros nomes formam um grupo bastante diferente daquele elenco de celebridades que parte da audiência imagina quando começa a especular uma nova temporada.
A reação inicial nas redes foi de frustração justamente pela ausência de grandes estrelas. O crítico Chico Barney, do UOL, chamou atenção, porém, para uma característica histórica do próprio formato: A Fazenda nunca dependeu necessariamente de celebridades de primeira grandeza para funcionar. Muitas vezes são justamente os participantes menos conhecidos que acabam se transformando nos personagens mais memoráveis da temporada.
Essa leitura faz sentido. Reality show não é concurso de popularidade prévia. Um nome famoso pode atrair curiosidade na estreia, mas não necessariamente sustenta três meses de confinamento. Para A Fazenda funcionar, a produção precisa sobretudo de personalidades incompatíveis, pessoas dispostas a se posicionar e participantes capazes de transformar pequenos acontecimentos cotidianos em conflitos.
Nesse aspecto, é cedo demais para decretar que o elenco de A Fazenda 18 é fraco. Talvez ele seja apenas desconhecido. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Sérgio Hondjakoff mostrou na estreia o poder da memória afetiva
Um dos exemplos mais evidentes apareceu rapidamente. Sérgio Hondjakoff, eternamente associado ao Cabeção de Malhação, ganhou enorme atenção nas redes sociais e acabou entre os primeiros moradores enviados para a Baia. Ao lado dele, Gabriel Torres, Murilo Dias e Jônatas Faro também foram escolhidos pelos visitantes.
A repercussão em torno de Sérgio mostra que a Record acertou ao explorar um tipo de participante muito valioso para realities: a celebridade que talvez não esteja permanentemente nos holofotes, mas permanece instalada na memória afetiva de milhões de brasileiros.
É um reconhecimento diferente daquele provocado pelo influenciador do momento. Existe história por trás daquele rosto. E história gera curiosidade.
A dinâmica dos visitantes foi o melhor acerto da produção
Se existe um mérito claro na estreia, ele está na decisão de não desperdiçar a primeira semana apenas com apresentações.
Ana Bruna Ávila, Igor Monteiro, Giovanna Gold e Renê Thristan entraram como visitantes, receberam informações sobre os participantes e imediatamente tiveram de tomar decisões capazes de interferir na convivência. Durante a semana, eles continuarão participando de atividades antes de o público decidir quem poderá permanecer definitivamente no programa.
É uma solução simples, mas eficiente. Um dos problemas recorrentes dos realities é justamente a chamada lua de mel inicial: todo mundo se apresenta, distribui abraços, promete jogar limpo e passa dias evitando conflito. A Fazenda não pode se dar a esse luxo.
Sua identidade histórica está baseada justamente no confronto. Colocar quatro pessoas externas, já munidas de informações sobre os moradores, para interferir imediatamente nas relações é praticamente introduzir um elemento desestabilizador dentro da casa. E funcionou.
A estreia terminou deixando pequenas tensões e possibilidades abertas, em vez de simplesmente apresentar fichas biográficas durante horas.
Nostalgia foi usada com inteligência mas existe um risco
A Record também decidiu olhar para trás. A decoração da sede recupera elementos da primeira temporada, o tradicional microfone branco reapareceu e a própria comunicação da edição reforça a ideia de uma Fazenda raiz. A estratégia não acontece por acaso.
Depois de 18 temporadas, o programa precisa convencer o telespectador de que ainda existe algo especial naquela fórmula. Relembrar momentos históricos e recuperar símbolos antigos funciona porque reafirma a identidade do reality. É quase uma mensagem ao público: você sabe o que pode acontecer aqui.
Mas existe um limite. Nostalgia pode abrir a porteira; quem precisa sustentar a temporada é o elenco atual. Nenhum VT de brigas históricas substituirá novos conflitos memoráveis.
Galisteu continua sendo uma das maiores fortalezas do programa
Adriane Galisteu chega ao sexto ano consecutivo à frente de A Fazenda e demonstra uma característica fundamental para esse tipo de televisão: ela compreendeu o programa que apresenta. Não tenta transformar A Fazenda em algo mais sofisticado do que ele é.
Galisteu transita entre humor, provocação e autoridade e parece confortável dentro do universo exagerado do reality. A estreia reforçou novamente essa segurança. Oficialmente, ela continua responsável pela condução das provas, Roças, eliminações e grandes acontecimentos ao vivo da temporada.
Em um reality no qual o elenco frequentemente ameaça ultrapassar os limites do próprio formato, ter uma apresentadora capaz de conduzir o caos sem competir com ele é uma vantagem considerável.
O primeiro problema apareceu fora da sede
Nem tudo funcionou. Enquanto a estreia provocava movimentação nas redes sociais, usuários reclamavam de dificuldades para acessar o RecordPlus. A plataforma apresentou instabilidade justamente na noite em que havia maior interesse pela transmissão 24 horas.
É uma falha especialmente relevante em 2026. A Fazenda já não é apenas um programa de televisão. O reality acontece simultaneamente na Record, no streaming, nas redes sociais, nos cortes compartilhados pelos fãs e nas discussões que continuam quando a edição televisiva termina.
Se a Record quer transformar o RecordPlus em parte central dessa experiência, a plataforma precisa suportar justamente os momentos de maior demanda.
A estratégia contra a Globo também chamou atenção
Outro detalhe interessante aconteceu no relógio. Embora divulgada para começar às 22h45, a estreia efetivamente entrou no ar às 23h04, logo depois do encerramento de Quem Ama Cuida, novela das nove da Globo. A movimentação foi interpretada como estratégia da Record para aproveitar a migração de audiência após o principal produto da concorrente.
Do ponto de vista competitivo, a lógica é compreensível. Do ponto de vista do público, entretanto, atrasar significativamente um programa anunciado para determinado horário pode gerar desgaste especialmente numa era em que o telespectador acompanha televisão com o celular na mão e comenta tudo em tempo real.
A repercussão mostra que existe curiosidade
Talvez o indicador mais importante da primeira noite tenha vindo das redes. A própria Record registrou A Fazenda 18 entre os assuntos mais comentados do X durante a estreia, enquanto personagens, situações e escolhas da primeira dinâmica rapidamente começaram a alimentar comentários e memes.
Isso não significa que a temporada já seja um sucesso. Mas significa algo fundamental: há gente querendo falar sobre ela. E reality show vive disso.
O programa não precisa necessariamente que o público ame seus participantes. Precisa que escolha favoritos, rejeite outros, discuta comportamentos, forme torcidas e tenha vontade de descobrir o que acontecerá no dia seguinte. Indiferença é muito mais perigosa do que rejeição.
A Fazenda 18 começou melhor do que parecia
A estreia não entregou um barraco histórico, uma rivalidade instantânea ou aquele personagem que imediatamente assume o protagonismo absoluto da temporada. E talvez nem precisasse.
O primeiro programa cumpriu uma tarefa mais importante: apresentou um elenco inicialmente questionado e conseguiu deixar a sensação de que existem combinações potencialmente explosivas naquele confinamento.
A dinâmica dos visitantes acelerou o jogo. A nostalgia recuperou a identidade do programa. Galisteu continua segura no comando. Sérgio Hondjakoff mostrou o peso da memória afetiva. Pequenos atritos começaram a surgir e as redes sociais imediatamente passaram a procurar protagonistas. Agora começa o verdadeiro teste.
A Fazenda é um formato que depende menos de grandes nomes do que de grandes personagens. Se os participantes de A Fazenda 18 entenderem rapidamente que foram contratados para jogar e não apenas para aparecer , a Record pode ter encontrado justamente no elenco mais desacreditado seu maior elemento surpresa.
A porteira abriu sem a explosão prometida, mas deixou cheiro de fogo no feno. E, para uma primeira noite, isso já é um começo bastante promissor.
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