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    postado em 29/10/2026 17:58

    A Netflix parece ter entendido que não precisa reinventar a dramaturgia brasileira para conquistar o público. Basta aproveitar aquilo que o país sabe fazer muito bem: o bom e velho novelão. É justamente essa a proposta de Dom de Iludir, série que estreou nesta quarta-feira (28), reunindo um elenco de primeira linha, uma produção caprichada e uma história recheada de mentiras, traições, conflitos familiares e disputas de poder.

    Com dez episódios e direção geral de Mauro Mendonça Filho, a produção acompanha Lúcia Rossetti (Marieta Severo), uma rica colecionadora de arte que, desesperada diante da doença misteriosa da filha Maíra (Alice Wegmann), recorre aos serviços de Irina (Nanda Costa), uma suposta terapeuta espiritual. O encontro desencadeia uma sequência de golpes e revelações que colocam em xeque as relações entre duas famílias.

    O grande acerto da série está justamente em seu trio de protagonistas. Marieta Severo demonstra mais uma vez sua capacidade de transformar uma personagem aparentemente convencional em uma figura complexa, que mistura amor materno, autoritarismo e manipulação. Alice Wegmann acompanha a veterana com uma interpretação que explora as contradições de uma jovem dividida entre a dependência emocional e o desejo de liberdade. Já Nanda Costa acrescenta ambiguidade a uma personagem que transita entre a condição de golpista e a de alguém aprisionado pelas próprias escolhas.

    A química entre as três sustenta boa parte da narrativa, inclusive quando o roteiro parece perder força. José de Abreu também contribui para dar peso ao elenco, reforçando a atmosfera de um folhetim tradicional apresentado com a embalagem sofisticada do streaming.

    O problema é que Dom de Iludir nem sempre consegue equilibrar suas ambições. A sucessão de reviravoltas mantém a curiosidade, mas algumas situações avançam rapidamente demais, enquanto outras parecem se prolongar sem necessidade. Há momentos em que os personagens mudam de comportamento conforme as conveniências da trama, comprometendo a consistência emocional de determinados conflitos.

    Essa irregularidade revela uma dificuldade recorrente das produções que tentam condensar a estrutura de uma novela em poucos episódios: preservar a intensidade dramática sem sacrificar o desenvolvimento dos personagens. A série consegue provocar curiosidade e estimular a maratona, mas nem sempre oferece a profundidade necessária para que todas as suas revelações tenham o impacto pretendido.

    Outro aspecto interessante é a tentativa de discutir desigualdade social, privilégios e relações de poder a partir do confronto entre famílias de realidades econômicas distintas. Entretanto, essas questões funcionam melhor como pano de fundo do que como uma reflexão verdadeiramente aprofundada. O entretenimento acaba prevalecendo sobre a crítica social.

    A recepção inicial da crítica especializada reflete essas qualidades e limitações. O Omelete destacou positivamente a força do melodrama, as atuações e o ritmo da narrativa. Já o portal Entre Séries apontou problemas de desenvolvimento e falta de dinamismo em determinados momentos. São avaliações que demonstram como a produção consegue agradar pelo conjunto, mesmo sem apresentar um roteiro particularmente inovador.

    Quanto à repercussão popular, ainda é cedo para afirmar que Dom de Iludir se tornou um fenômeno. Com apenas um dia de disponibilidade, não há elementos suficientes para medir de maneira consistente a aprovação dos assinantes ou seu desempenho de audiência.

    No balanço geral, Dom de Iludir é uma produção competente, visualmente bem realizada e valorizada por excelentes interpretações. Não revoluciona o gênero, tampouco apresenta uma história especialmente original. Seu mérito está em compreender a força do melodrama brasileiro e adaptá-lo ao consumo do streaming.

    A Netflix acerta ao investir nesse formato, mas a série também evidencia que elenco estrelado, fotografia sofisticada e reviravoltas não substituem um roteiro mais consistente. É um novelão envolvente, com qualidades suficientes para prender o espectador, mas que poderia alcançar resultados ainda melhores se confiasse menos nos golpes de efeito e mais na construção de seus personagens.

    No fim, Dom de Iludir diverte mais do que surpreende. E, embora esteja longe de ser uma obra-prima, confirma que a dramaturgia brasileira continua tendo muito a oferecer às plataformas de streaming.

    O texto Dom de Iludir acerta ao apostar no novelão, mas nem um elenco de peso consegue esconder as fragilidades do roteiro foi publicado primeiro no Observatório da TV.

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